A evolução da política externa indiana nas últimas décadas revela um processo complexo de ajustamento a um ambiente internacional marcado por tensões crescentes, rivalidades regionais e transformações profundas na distribuição global do poder. O Médio Oriente, tradicionalmente designado na diplomacia indiana como Ásia Ocidental, constitui um dos palcos onde esta reconfiguração se torna mais visível. A eclosão de novos conflitos, frequentemente descritos como uma terceira vaga de instabilidade no Golfo, expôs as fragilidades de uma estratégia que procurou conciliar interesses contraditórios, mantendo simultaneamente relações estreitas com Israel e com o Irão. Este equilíbrio delicado, que durante anos permitiu a Nova Deli maximizar benefícios económicos, energéticos e securitários, enfrenta hoje limites estruturais que obrigam a uma reflexão profunda sobre o futuro da presença indiana na região.
Durante a Guerra Fria, a política externa da Índia assentava numa leitura anti-imperialista do sistema internacional. A causa palestiniana era vista como uma extensão das lutas anticoloniais que moldaram a identidade do país após a independência. A aproximação ao Movimento dos Não-Alinhados reforçava esta visão, permitindo a Nova Deli posicionar-se como defensora de povos submetidos a ocupações ou tutelas externas. A solidariedade com a Palestina não era apenas retórica pois integrava uma narrativa histórica que associava o domínio britânico na Índia às dinâmicas de poder que sustentavam a presença ocidental no Médio Oriente. Esta postura, porém, começou a transformar-se a partir da década de 1990, quando o fim da bipolaridade e a necessidade de modernização económica levaram o país a diversificar parcerias e a procurar novos aliados tecnológicos e militares.
É neste contexto que se insere a aproximação gradual a Israel. A normalização das relações diplomáticas, iniciada no início da década de 1990, abriu caminho a uma cooperação que se intensificou de forma contínua. Israel tornou-se um dos principais fornecedores de equipamento militar à Índia, desempenhando um papel decisivo na modernização das suas forças armadas. A colaboração estendeu-se a áreas como a vigilância, a cibersegurança e o combate ao terrorismo, sectores nos quais a experiência israelita é amplamente reconhecida. Para além do domínio militar, a parceria expandiu-se a sectores civis, incluindo a gestão de recursos hídricos, a agricultura de precisão e a inovação tecnológica. A visita oficial de Narendra Modi a Israel, a primeira de um primeiro-ministro indiano em funções, simbolizou a consolidação desta relação, que passou a ser descrita por responsáveis indianos como uma das mais fiáveis e estratégicas.
Contudo, esta aproximação não eliminou a importância histórica do Irão para a Índia. As ligações entre os dois países remontam a séculos de intercâmbio cultural, linguístico e religioso, que moldaram profundamente a identidade do subcontinente. Líderes indianos como Jawaharlal Nehru sublinharam repetidamente a profundidade desta relação, destacando a influência iraniana na formação da civilização indiana. Para além dos laços culturais, o Irão desempenhou um papel central no abastecimento energético da Índia. Até à imposição de sanções americanas em 2019, era um dos principais fornecedores de petróleo ao país, contribuindo para a segurança energética de uma economia em rápida expansão.
A relevância estratégica do Irão, porém, vai muito além da energia. A localização geográfica iraniana oferece à Índia uma via alternativa de acesso ao Afeganistão e à Ásia Central, regiões onde Nova Deli procura contrabalançar a influência do Paquistão e da China. O porto de Chabahar, desenvolvido com financiamento indiano, constitui um elemento essencial desta estratégia, permitindo contornar o território paquistanês e reforçar a presença indiana em corredores comerciais emergentes. A cooperação com Teerão, portanto, não é apenas instrumental pois integra uma visão mais ampla de projecção regional e de diversificação de rotas económicas.
A dificuldade reside precisamente na coexistência destas duas parcerias. A intensificação do conflito no Médio Oriente coloca a Índia perante dilemas que não podem ser resolvidos através de ambiguidades calculadas. A solidariedade com Israel, reforçada por afinidades políticas entre o governo de Modi e sectores conservadores israelitas, contrasta com a necessidade de preservar relações funcionais com o Irão, cuja influência regional continua incontornável. Cada escalada militar no Golfo aumenta o risco de comprometer interesses indianos, seja pela interrupção de fluxos energéticos, seja pela vulnerabilidade de milhões de trabalhadores indianos residentes nos países do Golfo, cuja segurança e remessas financeiras são vitais para a economia nacional.
A pressão externa agrava ainda mais este quadro. A política americana para a região, especialmente durante a administração de Donald Trump, procurou isolar o Irão e limitar a sua capacidade de actuação. A imposição de sanções extraterritoriais colocou a Índia numa posição delicada, obrigando-a a reduzir drasticamente as importações de petróleo iraniano e a reavaliar projectos estratégicos. Ao mesmo tempo, Washington tem procurado conter a ascensão económica indiana, temendo repetir o que considera ter sido um erro estratégico na relação com a China. A narrativa de um “gigante indiano” em ascensão é, assim, simultaneamente incentivada e controlada pelos Estados Unidos, que procuram moldar o ritmo e a direcção do crescimento indiano de forma a evitar desequilíbrios futuros.
A Índia, por seu lado, tenta preservar a sua autonomia estratégica, um princípio central da sua política externa desde a independência. Contudo, a crescente interdependência económica e securitária limita a margem de manobra de Nova Deli. A necessidade de manter boas relações com Washington, essencial para equilibrar a influência chinesa no Indo-Pacífico, colide com a vontade de manter uma política independente no Médio Oriente. A aproximação a Israel, embora vantajosa em termos tecnológicos e militares, complica a relação com Teerão, que vê esta convergência como parte de um alinhamento mais amplo com os adversários regionais do Irão.
A situação torna-se ainda mais complexa quando se considera a dimensão interna da política indiana. O governo de Modi tem promovido uma narrativa identitária que valoriza a aproximação a Israel como símbolo de uma nova assertividade nacional. Esta retórica, porém, pode limitar a flexibilidade diplomática necessária para gerir crises regionais. A Índia continua a defender oficialmente a solução dos dois Estados para o conflito israelo-palestiniano, mas a sua capacidade de influenciar o processo é reduzida, e a percepção internacional sobre a sua neutralidade tem-se alterado.
A terceira vaga de instabilidade no Golfo expõe, portanto, as contradições de uma estratégia que procurou conciliar interesses divergentes sem assumir compromissos claros. A dependência energética, a presença de uma vasta diáspora no Golfo, a necessidade de acesso a rotas comerciais alternativas e a cooperação militar com Israel criam um conjunto de prioridades que nem sempre são compatíveis. A Índia enfrenta o desafio de redefinir a sua posição na região, procurando evitar que o agravamento das tensões comprometa os seus objectivos de longo prazo.
A médio prazo, a capacidade da Índia para gerir estas contradições dependerá da sua habilidade em diversificar fontes energéticas, reforçar a sua autonomia tecnológica e consolidar parcerias multilaterais que reduzam a vulnerabilidade a pressões externas. A construção de uma política coerente para a Ásia Ocidental exigirá uma avaliação realista dos limites do equilíbrio estratégico e uma reflexão sobre o papel que a Índia pretende desempenhar num sistema internacional cada vez mais fragmentado.
Em suma, a crise no Médio Oriente funciona como um teste decisivo à política externa indiana. O equilíbrio entre Israel e Irão, que durante décadas foi possível graças a uma combinação de pragmatismo e ambiguidade, revela-se insuficiente para lidar com um ambiente regional em rápida transformação. A Índia encontra-se perante a necessidade de redefinir prioridades, clarificar posições e assumir um papel mais activo na gestão das tensões regionais, sob pena de ver comprometidos os seus interesses estratégicos num dos espaços mais sensíveis do sistema internacional.
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