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Zona livre de comércio euro-asiático

Apr 3, 2009 | Perspectivas |

Um encontro de séculos na história dos dois povos voltou-se a reatar. O renascimento das trocas comerciais fazia esquecer as antigas lutas políticas num processo de reconciliação mútua, que no seu significado mais atraente, era o restabelecimento da outrora, popularizada no Ocidente e denominada no século XIX, por um célebre geólogo alemão de “Rota da Seda”. A reabertura da fronteira teve um duplo significado histórico, primeiro com o significado de assinalar a convergência sino-indianas entre os dois países de maior população do mundo e de economias gigantes e emergentes em confronto nos últimos cinquenta anos, que sofreram as investidas no passado dos soviéticos e americanos e que iniciaram um complexo processo de integração com impactos futuros consideráveis à escala mundial.

A zona fronteiriça foi durante alguns milénios considerado o eixo que permitia a articulação numa teia de caminhos em que um deles se direccionava a Sul e entrava no sub continente indiano e outro maior que cruzava a Ásia terminando na Turquia, e dali seguia outro, até ao centro da Europa. O império romano por este meio, intercambiava com o império chinês, recebendo os magníficos tecidos de seda. Eram caminhos que atravessavam o coração da Ásia Central, nomeadamente o vale de Fergana, o mais povoado e rico, conquistado no século XIX pelo império russo e depois da dissolução da União Soviética, dividiu-se entre o Uzbequistão, Tajiquistão e o Quirguistão, palco de abundantes revoltas islâmicas.

No seu percurso para Ocidente, essas estradas atravessavam o Afeganistão, Uzbequistão, Irão, Iraque, Síria e Egipto e terminavam no Mediterrâneo Oriental. Aí ligavam-se às rotas terrestres e marítimas da Europa Central e Ocidental. Essa teia de caminhos, não foi apenas percorrida por comerciantes, mas igualmente, por gente que fez e determinou a história, como o maior estratega da antiguidade clássica, Alexandre Magno, Gengis Khan, o imperador do mundo, Marco Pólo, comerciante e viajante que nasceu na actual Croácia, na época, parte da província de Veneza, mas também, por líderes militares chineses, que em meados do segundo século antes de Cristo, se deslocavam ao Ocidente para estabelecer alianças militares no seu combate aos hunos.

Nessa encruzilhada de caminhos, deram-se grandes batalhas e iniciaram-se os maiores movimentos de infiltração das religiões cristãs, islâmica e budista. Teia de caminhos com mais de dez mil quilómetros de comprimento que atravessam quarenta países da Eurásia, que pretendem converter-se no corredor económico mais longo e com maior potencial de desenvolvimento do mundo e considerado como a forte impulsionadora do desenvolvimento económico e comercial dos países da OCS. Estradas, que levaram mais de dois mil anos a estabelecerem, no meio de um complicado processo de culturas entrelaçadas, que incluíam vastas áreas de civilizações aparentemente unidas, sem contudo, deixar de garantir a sua enorme diversidade, numa miscelânea de povos da Ásia Central, ou da faixa islâmica que vai da China, passando pela Índia até ao Mediterrâneo

A OCS é herdeira desse passado e os líderes dos países membros consideram-na como tal, o que faz que a Organização criada essencialmente para combater o terrorismo islâmico, tenha objectivos aquém dos económicos, fazendo de espinha dorsal de um sistema operativo ganancioso de recomposição ampliada da maior área civilizacional da história. A vaidade eurasiática coincide com a retirada futura dos Estados Unidos da região. O pico da sua ofensiva deu-se aquando da invasão do Afeganistão, seguida do Iraque, entre 2001 e 2003, que apontava de seguida em direcção à Síria e Irão. Uma retirada perceptível no seguimento do prolongamento da vitória no Kosovo, no Mediterrâneo Oriental e concluída com a instalação de bases militares na Ásia Central e nas ex-repúblicas soviéticas da zona do Mar Cáspio, como a República da Geórgia

Não estava em causa apenas o controlo dos recursos energéticos, mas o domínio da Eurásia, o que envolvia a longo prazo a anulação ou divisão da Rússia e China. A estratégia principal baseava-se na constituição de um corredor que iria do Paquistão até à Jugoslávia, que passava por países onde os Estados Unidos tinham fortes implantações militares como o Afeganistão, Iraque e talvez se o rumo tivesse sido outro, a Síria e o Irão; estados aliados como o Paquistão e países centro asiáticos da região do Mar Cáspio, (onde calcula que se encontrem os maiores jazigos de hidrocarbonetos do mundo) e que ficariam sob o seu controlo como o Uzbequistão, Geórgia e Quirguistão. Ilusões americanas que se atolaram no lamaçal iraquiano e se degradaram no Afeganistão. O avanço militar sobre o Irão foi adiado indefinidamente.

À falta de visão estratégica dos Estados Unidos somaram-se os desequilíbrios económicos que se agravaram como o deficit fiscal e comercial, a hiper-dívida pública e privada, a bolha imobiliária, a dívida hipotecária “sub-prime” e o desregulado e incontrolável mercado de créditos derivativos que conduziram o mundo à actual crise, caindo o sistema financeiro internacional como um baralho de cartas e a guerra que pensavam ser uma solução, converteu-se num buraco negro que diariamente devora cada vez mais fundos e produz desprestigio e isolamento político.

Nos últimos anos, a presença dos Estados Unidos na Eurásia, em particular no seu corredor estratégico foi perdendo força e devido a tal debilidade crescente e à subida dos preços do petróleo, os países da região aumentaram o seu poder como a Rússia e o Irão, ou como resultado da sua dinâmica produtiva, como a China e Índia. Perante tal facto, os pequenos países da região começaram a distanciar-se dos Estados Unidos e cresciam os sinais amigáveis para com a China e Rússia.

Neste novo contexto, a diplomacia discreta passou a ser substituída por uma mais notória e agressiva, existindo desde logo factos que a demonstram entre eles, a realização de manobras militares conjuntas entre russos e chineses num clima de proliferação rápida de actividades comuns e acordos de toda a espécie, enquanto a Rússia vai reconquistando posições perdidas, como o Uzbequistão, a maior potência da Ásia Central e possuidora do melhor e maior exército da região, apesar da sua indisciplina e ineficácia, governado ditatorialmente por Islam Karimov, e que se vai afastando da órbita americana e retomando a antiga relação com a Rússia e incentivando os investimentos chineses.

A Bielorrússia governada pelo presidente pró Rússia, Alexander Lukashenko, que é o terceiro líder das ex-repúblicas soviéticas a tentar perpetuar-se no governo por meio de recurso ao referendo, como o fez Islam Karimov, que inaugurou tal prática, seguida do presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, do presidente do Tajiquistão, Emomali Rajmon, e recentemente pelo presidente do Azerbaijão, Ilham Aliev. Tem resistido às pressões ocidentais que tentavam repetir a “revolução laranja” da Ucrânia e do presidente Viktor Iuchtchenko.

Na Reunião de Shangai da OCS, de 15 de Junho de 2006, por ocasião da comemoração do quinto aniversário do estabelecimento da instituição regional multilateral, o ex-presidente e actual primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, anunciou o apoio financeiro e técnico russo à construção do gasoduto Irão – Paquistão – Índia. É um projecto iraniano preparado há mais de uma década, que tem um percurso de dois mil e setecentos quilómetros e com custo aproximado de sete mil milhões de dólares.

A Índia e o Paquistão poderão receber anualmente trinta e cinco milhões de metros cúbicos de gás entre 2015 e 2020. A empresa russa “Gazprom” manobrada por Vladimir Putin é a responsável pelo projecto. A Índia receberá gás iraniano barato o que aos preços médios dos últimos três anos, poderá poupar trezentos milhões de dólares anuais. O Paquistão, que será importador líquido prevê-se que entre 2010 e 2015 não receba apenas gás para o seu consumo, mas também, cerca de seiscentos milhões de dólares pelo trânsito do mesmo. A etapa seguinte será o prolongamento do gasoduto até a província chinesa de Yunnan.

A OCS virá discretamente até 2020 a ser uma Zona Livre de Comércio, com livre circulação de produtos, serviços, capitais e tecnologias, que não de pessoas.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 03.04.2009

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