Portugal é um país que vive num estado permanente de interrogação silenciosa, como se estivesse sempre a perguntar a si próprio quem é, o que quer e para onde vai. Há séculos que nos habituámos a esta espécie de inquietação identitária, uma oscilação entre grandeza e modéstia, entre ambição e resignação, entre o impulso de avançar e o hábito de esperar. Somos um país que se descreve com orgulho e ironia, que se critica com severidade e ternura, que se observa ao espelho com uma mistura de vaidade e melancolia. E, no entanto, apesar de todas as hesitações, continuamos aqui persistentes, resilientes, teimosos e sobreviventes.

A política portuguesa é talvez o reflexo mais nítido desta condição. Não porque seja pior do que a de outros países, mas porque nela se condensam, como num laboratório, as virtudes e os vícios que atravessam a sociedade. O Parlamento tornou‑se um palco onde se encena diariamente a nossa relação com o poder, a responsabilidade e o futuro. Ali dentro, entre discursos inflamados, ironias afiadas e indignações coreografadas, revela‑se a alma contraditória do país capaz de lucidez brilhante e de distracção crónica, coragem moral e cálculo mesquinho, visão estratégica e  miopia imediatista.

Portugal é um país que pensa depressa, mas avança devagar. Temos uma capacidade extraordinária de diagnosticar problemas. Identificamos falhas, injustiças, desigualdades, ineficiências, atrasos e vícios estruturais. Falamos deles com precisão quase cirúrgica. Mas quando chega o momento de agir, instala‑se um receio difuso, uma prudência excessiva, um medo de mexer no que está torto porque “pode ficar pior”. Esta cultura de contenção, que por vezes se confunde com prudência, acaba por transformar‑se numa forma de imobilismo confortável. E assim o país vai andando, como quem atravessa um rio saltando de pedra em pedra, sempre a testar o terreno antes de dar o passo seguinte.

A verdade é que Portugal habituou‑se a sobreviver. Sobreviveu a crises económicas, governos instáveis, austeridades sucessivas, promessas incumpridas, reformas adiadas e entusiasmos passageiros. Sobreviveu a tudo isso com uma serenidade quase desconcertante. Mas sobreviver não é o mesmo que progredir. A sobrevivência é uma virtude quando o mundo desaba; torna‑se um vício quando o mundo exige transformação. O país precisa de mais do que resiliência; carece de direcção, ambição e coragem para romper com a lógica do “sempre foi assim”.

O problema não está apenas nos políticos embora seja fácil apontar-lhes o dedo. Está também na sociedade, que muitas vezes exige mudança, mas teme as consequências da mudança; que pede reformas, mas resiste a qualquer alteração que toque nos seus próprios privilégios; que critica o Estado, mas espera dele soluções para tudo; que reclama eficiência, mas tolera a burocracia; que exige transparência, mas convive com a opacidade. Portugal é um país que quer tudo, mas raramente aceita o preço de tudo.

Ainda assim, há sinais de esperança. A sociedade civil portuguesa é mais crítica, informada e  exigente do que nunca. A juventude, tantas vezes descrita como apática, está afinal mais atenta,  globalizada e menos disposta a aceitar o “é assim porque sempre foi assim”. Há um novo impulso cultural, científico e tecnológico que começa a romper com a velha lógica da pequenez. E há, sobretudo, uma consciência crescente de que o país não pode continuar a viver de remendos, improvisos e soluções transitórias.

O grande desafio de Portugal é transformar esta consciência em acção. E isso exige uma mudança profunda na forma como pensamos o Estado, economia, educação, justiça e administração pública. Exige que deixemos de tratar o futuro como uma abstracção distante e passemos a encará-lo como uma construção diária. Exige que abandonemos a ideia de que o país é pequeno demais para grandes ambições. Pequeno é o país que não ousa; não o que tem poucos habitantes.

A política portuguesa precisa de reencontrar a sua função essencial; servir o país, não servir-se dele. Precisa de menos espectáculo e mais substância, menos indignação performativa e mais trabalho invisível, menos frases de efeito e mais reformas estruturais. Precisa de líderes que falem menos de si e mais do país, que pensem menos no ciclo eleitoral e mais no ciclo histórico, que tenham a coragem de dizer o que é necessário, mesmo quando não é popular.

Mas a responsabilidade não é apenas dos líderes. É também dos cidadãos, que têm de exigir, participar, fiscalizar e envolver-se mais. A democracia não é um espectáculo a que assistimos da plateia; é uma obra colectiva em que todos temos um papel. Portugal só mudará quando cada português aceitar que a mudança começa em si na forma como vota, participa, trabalha, exige e contribui.

Portugal merece mais do que estabilidade; merece direção. Estabilidade sem direcção é apenas imobilidade com boa imprensa. O país precisa de um projecto nacional que ultrapasse ciclos eleitorais, que una em vez de dividir e inspire em vez de desiludir. Um projecto que recuse a mediocridade confortável e abrace a ambição responsável. Um projecto que devolva aos portugueses a confiança de que o futuro pode ser melhor do que o passado não por milagre, mas por trabalho, visão e coragem.

Portugal está à procura de si próprio. Talvez sempre tenha estado. Mas isso não é uma fraqueza; é uma oportunidade. Os países que se interrogam são os que evoluem. Os que se acomodam são os que estagnam. Portugal tem tudo para ser mais do que um país que sobrevive; pode ser um país que lidera, inspira, cria e transforma. Para isso, basta que finalmente decida ser aquilo que sempre sonhou ser.