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Messias do fatalismo

Mar 13, 2009 | Perspectivas |


Entre os profetas da má sorte, sobressai o Professor de Economia, Nouriel Roubini, da Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque. Recebeu o cognome de “Dr. Doom” pela sua extraordinária visão pessimista acerca do futuro da economia global. Vive-se um terramoto que teve a sua última aparição, com estes contornos há cerca de um século.

Nos últimos dias têm-se dado dois espantosos fenómenos, consistindo o primeiro no impetuoso ressurgimento da Teoria Geral de John Maynard Keynes, onde se concentram as últimas tentativas para encontrar uma explicação a esta realidade e soluções que permitam ultrapassá-la, e o segundo no facto de os anteriores profetas, da crise virem a terreiro anunciar o seu fim. 
Muitos pensadores económicos começam a serenar numa perspectiva de restabelecimento da economia global no próximo Verão, outros, de pensamento mais rígido desenham a teoria da recuperação com início no terceiro trimestre do próximo ano, e por último, os que defendem que a China e a Índia serão as locomotivas da ressurreição do crescimento económico mundial.

Estes três distintos grupos de pensadores, não conseguem dar explicações técnicas de como chegaram a tais conclusões e muitos encontram-se em contradição de pensamento, indignando-se há meses com o desregramento da despesa pública, deficit fiscal, falta de rigorismo dos governos, vêm apregoar que estes injectem volumes inquietantes de dinheiro na economia, ainda que, a dívida que se acumula deva ser paga por várias gerações de contribuintes.

Existe um ponto comum a estes três pensamentos, que se traduz na defesa da despesa extraordinária. As diferenças variam quanto aos limites máximos do dinheiro a injectar e a conveniência ou não de em simultâneo diminuir o deficit. Defendem uns que se deve injectar o montante máximo possível de liquidez até que o sistema financeiro se estabilize e possa continuar a prover crédito à economia real, outros, que se deve fornecer os recursos necessários, sem exageros, adentro de um juízo selectivo e não fomentar o desgoverno, e os restantes satisfazer as carências de liquidez de forma razoável e em conjunto traçar uma estratégia de diminuição progressiva do deficit. É o núcleo do problema com a questão agregada de quem deve receber ajuda.

Alguns pensadores defendem a tese da urgência em normalizar o sistema financeiro, passando pela disponibilização de todos os recursos em falta, para que os bancos não entrem em falência, salvando accionistas e executivos incautos. Os restantes apoiam a ideia oposta de que o volume de dinheiro emprestado aos bancos é insuficiente, pelo que se deve estatizar o maior número possível, sendo um benefício insólito sanear bancos de proprietários irresponsáveis.

Quando os símbolos da indústria americana pedem ajuda, o cenário complica-se. Não é possível negar vinte mil milhões de dólares à General Motors, quando o Citigroup recebeu uma ajuda de cinquenta mil milhões de dólares. Este autêntico terramoto teve no início, explicação muito simples que foi a concessão de crédito tendo como garantia más hipotecas, sendo baptizado de “subprime”.

O que não tinha ficado esclarecido desde o princípio foi a extensão de um sistema financeiro paralelo, os “hedge funds” ou fundos derivativos que escaparam ao controlo dos governos e dos bancos centrais a nível mundial. A destruição dessa vasta rede de actividades não controladas poderá levar tempo a concretizar-se, o que torna impossível calcular as verdadeiras dimensões desta catástrofe e mesmo que os governos injectem vultuosas quantidades de liquidez no sistema financeiro são obrigados a esperar pelo seu resultado.

Quando se revelam insuficientes, voltam a injectar novo volume de liquidez. É impossível prever quantas mais injecções de liquidez no sistema financeiro serão necessárias. O que começou por ser uma simples crise financeira veio a contagiar a economia real.

Na visão do vulgar cidadão, a realidade é da existência de um endividamento a nível mundial de uma grandeza nunca vivida anteriormente. O senso comum, revela que sempre que existe uma crise existem perdas e perdedores. Não apenas limitados aos que arriscam em instrumentos financeiros especulativos, mas também os accionistas das empresas que vêem tombarem num espaço de horas, muitas das vezes, o valor dos seus activos, para não falar dos têm hipotecas que não podem cancelar.

No pior estilo bíblico de interpretação deve estar para acontecer uma enorme indulgência. Um perdão forçado das dívidas, pelo menos em forma parcial. Estima-se que a dívida individual de cada americano é de 150% do rendimento disponível do país. A dívida de alguns bancos é de cem vezes o seu capital. O mesmo acontece na Europa. Segundo o Professor Nouriel Roubini, as perdas totais dos bancos no final da crise será de 1,9 milhões de milhões de dólares.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 13.03.2009 

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