A história das grandes conflagrações internacionais demonstra que raramente surgem como resultado de um plano deliberado e linear. Pelo contrário, tendem a emergir de processos cumulativos, de tensões que se sobrepõem e se intensificam até ultrapassarem o limiar da contenção. A ideia de que as guerras mundiais “não se planeiam, tornam-se tais” traduz precisamente esta dinâmica de que a passagem de rivalidades localizadas para confrontos sistémicos ocorre quando os actores envolvidos percebem que a sua sobrevivência política, económica ou identitária está em causa. A partir desse momento, a lógica da escalada substitui a da prudência, e o conflito adquire uma dimensão que ultrapassa a intenção inicial dos seus protagonistas.

No presente contexto internacional, marcado por uma redistribuição acelerada de poder e pela erosão de mecanismos de arbitragem global, esta lógica acumulativa torna-se particularmente visível. A competição pela hegemonia, sobretudo quando a potência dominante revela sinais de desgaste, cria um ambiente propício ao surgimento de conflitos que se autoalimentam. A perda de confiança na capacidade de um actor central impor limites ou mediar disputas abre espaço para iniciativas unilaterais, reacções desproporcionadas e interpretações maximalistas das ameaças. Assim se forma um terreno fértil para confrontos que, embora inicialmente circunscritos, se expandem por contágio estratégico.

A chamada “Guerra Grande”, entendida como a confluência entre o conflito na Ucrânia e as ofensivas desencadeadas no Médio Oriente após os acontecimentos de 7 de Outubro, ilustra esta tendência. Nenhum dos intervenientes declarou intenção de desencadear um conflito de escala global, mas a interligação entre teatros de guerra, alianças regionais e rivalidades históricas produz um efeito de ampliação contínua. A terceira guerra do Golfo, ainda que não seja concebida como prelúdio de uma guerra mundial, insere-se neste quadro de acumulação de tensões, contribuindo para a instabilidade de um sistema internacional fragilizado.

Um dos elementos mais perturbadores deste cenário é a aparente incapacidade da potência que durante décadas assumiu o papel de árbitro global de explicar de forma coerente os objectivos da sua intervenção. A ausência de uma narrativa estratégica clara fragiliza a legitimidade das acções empreendidas e alimenta a percepção de que decisões de grande impacto são tomadas de forma reactiva, influenciadas por dinâmicas políticas internas ou por alianças que se tornaram mais condicionantes do que complementares. A relação entre os Estados Unidos e Israel, frequentemente descrita como uma parceria estratégica, parece ter evoluído para uma situação em que Washington segue a lógica de segurança de Telavive, marcada pela ideia de ameaça permanente e pela convicção de que a paz com determinados actores regionais é estruturalmente impossível.

Esta inversão de papéis tem implicações profundas. Ao adoptar uma visão de conflito contínuo, os Estados Unidos arriscam a transformar-se de potência estabilizadora em actor imprevisível, cuja intervenção deixa de ser vista como garantia de ordem e passa a ser interpretada como factor de incerteza. A credibilidade do “guarda-chuva” de segurança americano, abalada por decisões contraditórias ao longo das últimas décadas, sofre novo desgaste. A percepção de que a superpotência actua mais por impulsos conjunturais do que por estratégia coerente incentiva aliados e adversários a recalcular os seus riscos e oportunidades.

No caso de Israel, a intensificação da postura militarista, associada à fragmentação interna e à crescente tribalização da sociedade, aprofunda a dependência de um apoio externo que não é garantido de forma incondicional. A transformação simbólica de Jerusalém numa espécie de “Esparta contemporânea” reflecte a centralidade do aparelho militar na definição da identidade nacional e na gestão das tensões internas. Contudo, esta estratégia tem custos elevados pois ao privilegiar respostas de força, o país arrisca prolongar conflitos que desgastam a sua coesão interna e comprometem a sua posição regional.

O Irão, por sua vez, enfrenta um conjunto de vulnerabilidades que ultrapassam a dimensão militar. A pressão externa coincide com tensões internas profundas, alimentadas por clivagens étnicas, desigualdades socioeconómicas e contestação política persistente. A possibilidade de desagregação do Estado, ainda que remota, teria consequências imprevisíveis para toda a região. A eventual dispersão de capacidades militares sensíveis, incluindo tecnologia nuclear e mísseis balísticos, constituiria um risco global. A estratégia iraniana de alargar o caos regional pode ser interpretada como tentativa desesperada de evitar o colapso, deslocando o foco para fora das suas fronteiras e envolvendo actores que dependem, tal como Teerão, do controlo de rotas marítimas vitais.

A instabilidade nos estreitos estratégicos, essenciais para a circulação de energia e mercadorias, ameaça a economia global. A vulnerabilidade das cadeias logísticas, exposta durante a pandemia, torna-se ainda mais evidente quando conflitos regionais perturbam o tráfego marítimo. A interdependência económica, que durante décadas foi vista como factor de paz, revela-se agora um ponto fraco pois qualquer perturbação localizada pode gerar efeitos em cascata, afectando mercados, produção industrial e estabilidade financeira.

A Europa encontra-se numa posição particularmente delicada. A sua dependência energética, a proximidade geográfica aos focos de conflito e a ausência de uma política externa unificada tornam-na vulnerável às repercussões da Guerra Grande. A divisão entre Estados-membros, acentuada por diferentes percepções de ameaça e prioridades estratégicas, dificulta a formulação de respostas coerentes. A Itália, situada no centro do Mediterrâneo e dependente de rotas marítimas que atravessam zonas de conflito, sente de forma aguda esta vulnerabilidade. A designação simbólica de “Medioceania” sublinha a sua posição como ponte entre continentes, mas também a sua exposição a choques externos que afectam directamente a sua segurança e economia.

O alastramento da instabilidade ao Mar Vermelho, ao Mar Arábico e ao Oceano Índico ocidental compromete a ligação vital entre a Europa e a Ásia. A necessidade de contornar zonas de risco aumenta custos logísticos, prolonga tempos de transporte e reduz a competitividade das economias europeias. A isto soma-se a crescente competição entre potências regionais, como a Índia, o Paquistão e a China, cuja influência sobre o Afeganistão e sobre o corredor estratégico que liga a Ásia Central ao Oceano Índico se torna cada vez mais determinante. A rivalidade entre estes actores acrescenta mais uma camada de complexidade a um quadro saturado de tensões.

A acumulação de conflitos, rivalidades e crises sobrepostas sugere que o sistema internacional atravessa uma fase de transição profunda. A ordem que emergiu após a II Guerra Mundial, baseada na liderança americana e em instituições multilaterais robustas, encontra-se em processo de erosão. A ausência de um árbitro reconhecido, capaz de impor limites e mediar disputas, cria um vazio que é preenchido por iniciativas unilaterais e por alianças circunstanciais. A lógica de soma zero, que parecia ter sido superada com o fim da Guerra Fria, regressa sob novas formas, alimentada por percepções de ameaça existencial e por disputas identitárias que dificultam compromissos.

Neste contexto, a possibilidade de uma escalada não intencional torna-se real. Não porque os actores desejem um conflito global, mas porque a acumulação de tensões, a ausência de mecanismos de contenção e a crescente imprevisibilidade das decisões políticas criam condições para erros de cálculo. A história demonstra que grandes guerras podem surgir de incidentes aparentemente menores quando os sistemas de comunicação e confiança entre potências estão deteriorados. Hoje, a multiplicidade de actores envolvidos, a velocidade da informação e a interdependência tecnológica aumentam ainda mais o risco de reacções precipitadas.

A análise deste cenário não implica fatalismo, mas exige lucidez. A compreensão das dinâmicas acumulativas dos conflitos é essencial para identificar pontos de inflexão e oportunidades de desescalada. A reconstrução de mecanismos de diálogo, a revitalização de instituições multilaterais e a definição de linhas vermelhas claras podem contribuir para reduzir o risco de uma espiral incontrolável. Contudo, estas medidas exigem vontade política, capacidade de compromisso e reconhecimento mútuo de interesses legítimos elementos que, no actual clima internacional, se encontram em défice.

A transformação da ordem internacional não é um processo linear nem previsível. A competição pela hegemonia, a fragmentação das alianças tradicionais e a emergência de novos actores regionais moldam um ambiente em que a estabilidade depende cada vez mais da capacidade de gerir tensões do que de as eliminar. A consciência de que as guerras mundiais não se planeiam, mas se tornam possíveis pela acumulação de factores desestabilizadores, deve servir de alerta para a necessidade de reforçar mecanismos de prevenção e de promover uma cultura estratégica que privilegie a contenção e o diálogo.

Bibliografia

Andrade Luís Dinâmicas de Poder e Conflitos no Sistema Internacional Contemporâneo Lisboa Instituto de Estudos Estratégicos 2021,

Barros Helena A Transformação da Ordem Global no Século XXI Coimbra Centro de Investigação Política 2020,

Costa Miguel Geopolítica do Médio Oriente e Reconfiguração Regional Porto Observatório Euro Asiático 2022,

Ferreira António Hegemonia Declínio e Competição entre Grandes Potências Lisboa Fórum de Relações Internacionais 2019,

Martins Sofia Estratégias de Segurança e Instabilidade Global Braga Núcleo de Estudos Estratégicos 2023,

Oliveira Rui A Europa entre Conflitos e Dependências Lisboa Instituto de Política Internacional 2024,

 Santos Mariana Rotas Marítimas e Vulnerabilidades Económicas Globais Aveiro Centro de Estudos Transoceânicos 2021,

 Teixeira João Estados Falhados e Riscos Sistémicos no Médio Oriente Lisboa Instituto de Segurança Global 2022