Há épocas em que a violência se apresenta de botas cardadas e braço estendido, anunciando sem pudor as suas intenções. Há outras em que entra pela porta principal envolta em bandeiras, slogans patrióticos, campanhas de marketing político cuidadosamente desenhadas e discursos inflamados sobre segurança, identidade nacional e recuperação da grandeza perdida. O nosso tempo pertence perigosamente à segunda categoria. A violência deixou de ser apenas um instrumento de repressão física para se transformar num espectáculo permanente, consumido, partilhado, comentado e muitas vezes celebrado. O fenómeno mais inquietante não reside apenas nos actos violentos que proliferam em diversas sociedades democráticas, mas no fascínio que esses actos exercem sobre uma parcela crescente da opinião pública. Mais do que a liquidação progressiva dos direitos, das garantias constitucionais e das liberdades fundamentais, já por si suficientemente alarmante, é precisamente a sedução da violência que distingue inúmeros movimentos extremistas contemporâneos e os aproxima dos fascismos históricos.
A violência possui uma estética própria. É rápida, simples, emocional e aparentemente eficaz. Num mundo saturado de problemas complexos, soluções simplistas apresentam-se como produtos irresistíveis. Enquanto a democracia exige debate, negociação, compromisso, paciência e tolerância pela divergência, a violência promete resultados imediatos. A democracia pede cidadãos; a violência exige apenas espectadores. Talvez por isso, como advertiu Hannah Arendt em “The Origins of Totalitarianism” (1951), os movimentos autoritários prosperem precisamente quando os indivíduos deixam de actuar politicamente e passam a comportar-se como massas atomizadas, ressentidas e vulneráveis à manipulação.
É curioso observar a ironia dos novos pregadores da ordem. Proclamam-se defensores da civilização enquanto alimentam sistematicamente o ódio. Apresentam-se como patriotas enquanto corroem as instituições que sustentam as nações. Dizem combater o caos promovendo exactamente os sentimentos que tornam o caos inevitável. Há uma extraordinária habilidade em incendiar a casa enquanto se posa heroicamente junto ao extintor. Poucas operações de ilusionismo político alcançaram tal grau de refinamento.
A violência política contemporânea raramente surge isolada. É acompanhada por uma narrativa que a legitima, romantiza ou banaliza. Nenhum aspirante a autoritário se apresenta como inimigo da liberdade. Pelo contrário, apresenta-se como seu salvador. Esta estratégia foi magistralmente descrita por Umberto Eco no ensaio “Ur-Fascism” (1995), onde identifica a construção permanente de inimigos internos e externos como uma característica central dos movimentos fascistas. A sociedade é dividida entre os alegados representantes do povo autêntico e todos os outros como os jornalistas, académicos, magistrados, intelectuais, artistas, opositores políticos ou quaisquer grupos que se revelem úteis à mobilização do ressentimento colectivo.
A comunicação social ocupa um lugar particularmente incómodo neste processo. Quando exerce a sua função de escrutínio, transforma-se rapidamente em alvo prioritário. O jornalista que investiga torna-se traidor. O repórter que questiona converte-se em activista. O órgão de comunicação independente passa a integrar uma suposta conspiração. O objectivo não consiste necessariamente em eliminar a imprensa livre através de censura explícita. Métodos mais sofisticados revelam-se frequentemente mais eficazes. Basta desacreditar permanentemente todas as fontes de informação independentes até que a própria ideia de verdade se torne irrelevante.
Neste contexto, as reflexões de Noam Chomsky e Edward S. Herman em “Manufacturing Consent” (1988) conservam extraordinária actualidade. Os autores analisaram os mecanismos através dos quais sistemas mediáticos podem influenciar percepções colectivas e moldar consensos. Embora o seu estudo incidisse sobre realidades específicas, a lógica subjacente mantém-se actual numa era dominada por algoritmos, plataformas digitais e campanhas de desinformação capazes de atingir milhões de pessoas em segundos. A mentira deixou de necessitar de credibilidade; basta-lhe velocidade.
É aqui que surge uma das maiores perversidades do nosso tempo. A violência física continua perigosa, mas a violência simbólica tornou-se igualmente devastadora. A degradação sistemática do debate público produz sociedades incapazes de distinguir factos de fantasias. Quando tudo é opinião, nada é verificável. Quando todas as fontes são suspeitas, a verdade converte-se numa questão de preferência pessoal. E quando a realidade passa a ser definida pela emoção mais intensa do momento, os mais agressivos conquistam inevitavelmente vantagem competitiva.
Timothy Snyder alertou para esta dinâmica em “On Tyranny” (2017) e em “The Road to Unfreedom” (2018). Segundo o historiador, o autoritarismo moderno prospera através da destruição deliberada do espaço factual comum. Sem factos partilhados não existe democracia funcional. Sem confiança mínima em instituições independentes não existe cidadania informada. Sem debate racional resta apenas a luta tribal permanente, cenário ideal para quem pretende concentrar poder.
A extrema-direita contemporânea compreendeu perfeitamente esta realidade. Não necessita de convencer a maioria absoluta das populações acerca da sua visão do mundo. Basta convencer sectores suficientes de que ninguém merece confiança. O niilismo informativo produz resultados políticos extraordinariamente úteis. Quem desacredita todas as instituições não fortalece a liberdade; fortalece apenas aqueles que aspiram substituir as instituições pela sua própria vontade.
Entretanto, a violência transforma-se em entretenimento. A agressividade verbal converte-se em sinal de autenticidade. O insulto torna-se coragem. A brutalidade passa por franqueza. A ignorância orgulha-se da sua própria ignorância e suspeita do conhecimento como se este fosse uma forma particularmente sofisticada de corrupção moral. Nunca a mediocridade intelectual foi comercializada com tanto sucesso. Nunca a grosseria foi confundida com sinceridade de forma tão lucrativa.
Karl Popper advertiu em “The Open Society and Its Enemies” (1945) para o paradoxo da tolerância. Uma sociedade aberta não pode tolerar indefinidamente forças políticas empenhadas na destruição da própria abertura que lhes permite existir. O aviso permanece desconfortavelmente pertinente. Há quem interprete a tolerância democrática como obrigação de aceitar passivamente projectos políticos que visam abolir os fundamentos da democracia. O resultado costuma ser semelhante ao de alguém que entrega voluntariamente as chaves de casa ao assaltante e se congratula pela sua extraordinária cortesia.
A tragédia reside também no facto de a violência possuir um forte poder emocional. O medo mobiliza mais rapidamente do que a esperança. A indignação espalha-se mais depressa do que a reflexão. A simplificação gera mais cliques do que a complexidade. Os algoritmos das redes sociais, construídos para maximizar atenção e envolvimento, recompensam frequentemente os conteúdos mais extremos. Aquilo que outrora exigia comícios multitudinários, estruturas partidárias robustas e complexos aparelhos de propaganda pode hoje ser alcançado através de campanhas digitais cuidadosamente segmentadas.
Jürgen Habermas defendeu ao longo da sua obra, especialmente em “The Structural Transformation of the Public Sphere” (1962), a importância de uma esfera pública onde cidadãos possam debater racionalmente assuntos de interesse comum. O problema actual consiste na fragmentação desse espaço. Em vez de uma esfera pública partilhada, multiplicam-se bolhas informativas impermeáveis ao contraditório. Cada grupo passa a habitar uma realidade própria. O diálogo converte-se em monólogo colectivo.
Neste ambiente, a violência deixa de ser apenas um meio. Torna-se identidade. Muitos aderentes de movimentos radicais não são atraídos apenas pelas propostas políticas. São seduzidos pela sensação de pertença, pela adrenalina do confronto, pela estética da força e pela promessa ilusória de significado existencial. O inimigo fornece propósito. A hostilidade oferece coesão. O antagonismo produz identidade. A política transforma-se numa permanente guerra cultural onde compreender o outro é quase considerado uma forma de traição.
Talvez o aspecto mais inquietante seja a banalização progressiva deste processo. Aquilo que ontem parecia impensável hoje parece apenas controverso. O que ontem era inaceitável hoje surge como opinião respeitável. O que ontem indignava hoje provoca apenas um encolher de ombros. A degradação democrática raramente ocorre através de rupturas súbitas. Avança por pequenas concessões acumuladas, por sucessivas normalizações, por infinitas desculpas elaboradas em nome da conveniência política.
A história europeia do século XX fornece exemplos suficientemente claros para dispensar exercícios de imaginação. Contudo, existe uma estranha convicção segundo a qual os erros do passado pertencem sempre a outras gerações. Cada época acredita possuir imunidade especial contra velhas tragédias. Cada sociedade imagina-se demasiado moderna para cair nas armadilhas da intolerância. Cada geração considera-se mais esclarecida do que todas as anteriores. A história observa estas pretensões com um sorriso cruel.
Defender a democracia não significa ignorar as suas falhas. Significa reconhecer que, apesar de imperfeita, continua a ser o melhor mecanismo conhecido para limitar o poder arbitrário, proteger direitos fundamentais e permitir mudanças pacíficas. Quem promete substituir a complexidade democrática pela simplicidade autoritária oferece normalmente soluções tão eficazes quanto apagar um incêndio com gasolina.
O fascínio da violência constitui, por isso, um dos mais sérios desafios contemporâneos. Não apenas porque ameaça indivíduos concretos, mas porque corrói os alicerces culturais, morais e institucionais da convivência democrática. Sempre que a força substitui o argumento, sempre que o insulto substitui a razão, sempre que o medo substitui a liberdade e sempre que a violência se apresenta como virtude cívica, aproxima-se um horizonte perigoso. A democracia não morre apenas quando os seus inimigos triunfam. Morre também quando demasiados cidadãos passam a admirar aquilo que deveria causar-lhes repulsa.
Bibliografia
- Arendt, Hannah (1951). The Origins of Totalitarianism. New York: Harcourt Brace.
- Arendt, Hannah (1970). On Violence. New York: Harcourt Brace.
- Chomsky, Noam; Herman, Edward S. (1988). Manufacturing Consent: The Political Economy of the Mass Media. New York: Pantheon Books.
- Eco, Umberto (1995). Ur-Fascism. The New York Review of Books.
- Habermas, Jürgen (1962). The Structural Transformation of the Public Sphere. Frankfurt am Main: Suhrkamp.
- Popper, Karl (1945). The Open Society and Its Enemies. London: Routledge.
- Snyder, Timothy (2017). On Tyranny: Twenty Lessons from the Twentieth Century. New York: Tim Duggan Books.
- Snyder, Timothy (2018). The Road to Unfreedom. New York: Tim Duggan Books.
- Levitsky, Steven; Ziblatt, Daniel (2018). How Democracies Die. New York: Crown.
- Müller, Jan-Werner (2016). What Is Populism?. Philadelphia: University of Pennsylvania Press.
Jorge Rodrigues Simão, 2026
