Há quem diga que o comércio internacional é uma sinfonia de interesses, mas, na realidade, é um concerto de desafinados. A Organização Mundial do Comércio (OMC), essa catedral do livre mercado, tornou-se o confessionário onde as nações se ajoelham não para pedir perdão, mas para acusar o vizinho de pecados tarifários.
No dia 6 de Agosto, a China, com o seu habitual ar de quem tudo observa e nada esquece, pediu para participar nas consultas abertas entre o Brasil e os Estados Unidos, uma disputa que, como todas as disputas comerciais, tem menos de teológica e mais de teatral.
O pedido foi comunicado ao Órgão de Solução de Controvérsias da OMC essa espécie de tribunal onde os países se queixam uns dos outros com a mesma elegância com que os burgueses se insultavam nas tertúlias do século XIX.
Pequim justificou o gesto com um “interesse comercial substancial”. Traduzindo que não quer perder o lugar na mesa onde se decide quem paga o jantar da globalização.
O Brasil, sempre pronto a vestir o manto da vítima tropical, accionou a OMC contra duas tarifas impostas pela administração de Donald Trump uma de 25%, outra de 12,5%.
Washington, num rasgo de generosidade imperial, explicou que o Brasil “adopta práticas desleais”. A frase, saída da boca de um país que subsidia a sua agricultura como quem alimenta um hipopótamo com caviar, tem o mesmo valor moral que um sermão sobre humildade proferido por Nero.
O Presidente Lula da Silva, entre um discurso sobre soberania e outro sobre churrascos diplomáticos, declarou que as alegações americanas são “falsas” e que as sanções são uma forma de “interferência eleitoral”.
A ironia é deliciosa pois o país que exporta soja e futebol acusa o país que exporta sanções e moralismo de interferência. É como se o Papa acusasse o Dalai Lama de proselitismo.
Pequim, com o seu pragmatismo milenar, observou o duelo e decidiu que seria imprudente ficar de fora. Afinal, as tarifas americanas sobre produtos brasileiros também afectam as exportações chinesas e, como bem notou Adam Smith, “o comércio é uma troca de vantagens, não de virtudes” (The Wealth of Nations, 1776).
A China, portanto, não veio por solidariedade, mas por geometria moral pois se há uma mesa de negociações, há sempre um lugar reservado para quem fabrica metade do que o mundo consome.
O gesto chinês é um poema de diplomacia calculada. Enquanto o Brasil se queixa e os Estados Unidos justificam, Pequim insinua-se não como parte, mas como parte interessada, o que é sempre mais elegante. Como diria Sun Tzu, “a suprema arte da guerra é vencer sem lutar” (The Art of War, século V a.C.). E Pequim, neste caso, vence apenas por estar presente.
As tarifas são o equivalente moderno das muralhas medievais que protegem o castelo, mas sufocam o comércio. Os Estados Unidos, sob a batuta de Trump, decidiram que o mundo é um tabuleiro de xadrez onde cada país é um peão suspeito. Aplicaram tarifas de 25% ao Brasil por “práticas desleais” e de 12,5% por “falhas na fiscalização de produtos oriundos do trabalho forçado”.
A moralidade económica americana é uma curiosa mistura de puritanismo e pragmatism que condena o trabalho forçado, mas compra produtos fabricados por quem trabalha 12 horas por dia em fábricas que não têm janelas. Como escreveu Karl Polanyi, “a economia de mercado não é natural; é uma construção política” (The Great Transformation, 1944). E os Estados Unidos, mestres da construção, erguem tarifas como quem levanta muros não para proteger o trabalhador, mas para proteger o eleitor.
O Brasil, ofendido, recorreu à OMC com a solenidade de quem leva um caso de honra ao tribunal. Mas há algo de tragicómico neste gesto pois o país que se queixa das tarifas americanas é o mesmo que, há poucos anos, aplicava barreiras às importações de automóveis chineses e europeus. A diplomacia comercial é, afinal, um espelho deformante em que cada país vê no outro o reflexo dos seus próprios vícios.
Como observou Joseph Stiglitz, “a globalização foi gerida de forma a beneficiar os que já eram poderosos” (Globalization and Its Discontents, 2002). O Brasil, a China e os Estados Unidos são apenas três notas dissonantes na mesma sinfonia de interesses.
A Organização Mundial do Comércio, fundada em 1995, prometia um mundo sem barreiras, sem injustiças e sem guerras comerciais. Hoje, é um palco onde se encenam dramas tarifários com a mesma previsibilidade das novelas brasileiras. O Órgão de Solução de Controvérsias é o tribunal onde todos ganham moral e ninguém ganha dinheiro.
Washington aceitou o pedido do Brasil para iniciar consultas, num gesto que parece diplomático mas é apenas protocolar. “Estamos disponíveis para reunir numa data conveniente para ambas as partes”, diz o documento. Traduzindo: nunca. A OMC tornou-se o salão de chá da hipocrisia global. Cada país entra, bebe o seu chá de retórica e sai convencido de que defendeu o livre comércio enquanto prepara novas tarifas para o próximo trimestre.
Donald Trump, esse Napoleão do protecionismo, transformou as tarifas em instrumento de política externa. A sua lógica é simples pois se o mundo não compra o que os Estados Unidos vendem, então o mundo deve pagar por isso. Como escreveu John Maynard Keynes, “os homens práticos, que se julgam livres de qualquer influência intelectual, são geralmente escravos de algum economista defunto” (The General Theory of Employment, Interest and Money, 1936).
Trump, nesse sentido, é discípulo involuntário de Alexander Hamilton, que em 1791 defendia tarifas para proteger a indústria nascente americana. A diferença é que Hamilton queria criar fábricas; Trump queria criar manchetes. O comércio internacional é uma geometria moral onde cada país desenha triângulos de interesse e círculos de influência. A China, o Brasil e os Estados Unidos formam um triângulo perfeito de que um produz, outro exporta, outro sanciona.
Como escreveu Immanuel Kant, “o comércio é o meio mais seguro de aproximar os povos, mas não de os tornar virtuosos” (Perpetual Peace, 1795). A OMC, nesse sentido, é o templo onde se celebra o culto da virtude económica sem que ninguém pratique o que prega. O pedido chinês para participar nas consultas é mais do que um gesto técnico; é uma declaração de presença.
Pequim sabe que o futuro do comércio não se decide em Washington nem em Brasília, mas nas salas discretas de Genebra, onde os diplomatas trocam promessas por parágrafos. O Brasil, por sua vez, continuará a reclamar, porque reclamar é a forma mais barata de fazer política externa. Os Estados Unidos, entre um discurso sobre liberdade e democracia, continuarão a aplicar sanções, porque sancionar é a forma mais barata de parecer virtuoso.
O comércio internacional, esse colosso de hipocrisia, vive da ilusão de que todos jogam o mesmo jogo. Mas, como diria George Orwell, “alguns são mais iguais do que outros” (Animal Farm, 1945). A China joga xadrez, o Brasil joga damas, e os Estados Unidos jogam póquer com cartas marcadas.
A OMC, com os seus comunicados e protocolos, é o teatro onde se encena a virtude económica. Cada país entra em cena com o seu figurino moral e o Brasil veste o traje da inocência tropical, os Estados Unidos o uniforme da justiça tarifária, e a China o manto da sabedoria pragmática. Mas, como observou Thorstein Veblen, “a virtude é frequentemente uma questão de aparência” (The Theory of the Leisure Class, 1899). E na OMC, a aparência é tudo pois o discurso é moral, o gesto é comercial, e o resultado é nulo.
As consultas entre Brasil e Estados Unidos serão, como sempre, um ritual de cortesia diplomática. Reunir-se-ão, trocarão cumprimentos, citarão parágrafos do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, e sairão convencidos de que fizeram história quando, na verdade, apenas fizeram hora.
O Brasil, fiel ao seu evangelho da indignação, continuará a proclamar que é vítima de injustiça. Mas a sua retórica tem o mesmo efeito que um sermão num deserto que ecoa, mas não convence. A diplomacia brasileira, entre o lirismo e o pragmatismo, é uma mistura de samba e burocracia. Quer ser ouvido, mas fala em ritmo de desfile. Como escreveu Gilberto Freyre, “o brasileiro é um ser de conciliação” (Casa-Grande & Senzala, 1933). E é precisamente essa conciliação que o impede de romper com o sistema que o oprime.
O Brasil protesta, mas não rompe; reclama, mas não reforma; denuncia, mas não desmantela. É o eterno aluno aplicado da escola da globalização sempre a fazer queixa, nunca a fazer revolução. A China, por seu lado, observa tudo com a serenidade de quem sabe que o tempo é o seu aliado. Enquanto os outros discutem tarifas, Pequim constrói portos, ferrovias e alianças. Como escreveu Francis Fukuyama, “a história não acabou; apenas mudou de endereço” (The End of History and the Last Man, 1992). E o novo endereço é Pequim.
O pedido chinês para participar nas consultas é apenas mais um capítulo da sua estratégia de infiltração elegante de estar presente em todas as mesas, mesmo quando não é convidada. É o poder da ubiquidade e do domínio silencioso que não precisa de exércitos, apenas de contratos. Os Estados Unidos continuam a acreditar que o comércio é uma extensão da política externa. Para eles, cada tarifa é uma bala diplomática, cada sanção um sermão moral.
Como escreveu Noam Chomsky, “a força é o argumento dos que não têm razão” (Hegemony or Survival, 2003). E Washington, nesse sentido, é o orador mais eloquente do planeta. A Casa Branca aplica tarifas como quem aplica castigos não para corrigir, mas para afirmar autoridade. É o velho instinto imperial disfarçado de zelo regulatório. O mundo civilizado, esse conceito tão elástico quanto hipócrita, observa a disputa com o mesmo interesse com que se observa um incêndio alheio com curiosidade e distância.
A geometria moral da globalização é simples:
Os ricos fazem as regras.
Os pobres seguem as regras.
Os emergentes tentam reinterpretá-las.
Como escreveu Walter Benjamin, “não há documento de cultura que não seja também um documento de barbárie” (Theses on the Philosophy of History, 1940). E o comércio internacional é o documento mais bárbaro de todos porque transforma a desigualdade em estatística e a exploração em cláusula contratual.
No final, o Brasil e os Estados Unidos encontrar-se-ão em Genebra, trocarão sorrisos e comunicados, e sairão com a promessa de novas consultas. A China, discreta, tomará notas e aguardará o momento certo para propor uma nova iniciativa “de cooperação multilateral”. Nada mudará, porque nada precisa de mudar para que o sistema continue a funcionar. A OMC manterá o seu papel de árbitro impotente, o Brasil continuará a queixar-se, os Estados Unidos continuarão a sancionar, e a China continuará a crescer.
Como escreveu Albert Hirschman, “a retórica da reacção é sempre a mesma com perversidade, futilidade e ameaça” (The Rhetoric of Reaction, 1991). E é essa retórica que sustenta o comércio global que é um sistema que reage a tudo e resolve nada.
O episódio das consultas entre Brasil e Estados Unidos, com a China a pedir para participar, é mais do que uma disputa económica; é um retrato da civilização contemporânea. Um retrato onde a moral é negociável, a justiça é tarifada e a verdade é protocolar. O comércio internacional é o espelho onde o mundo se contempla e se engana. Cada país vê no reflexo o seu próprio ideal e ignora as rugas da hipocrisia.
Como escreveu Oscar Wilde, “a verdade raramente é pura e nunca é simples” (The Importance of Being Earnest, 1895). E na OMC, a verdade é tão pura quanto o açúcar refinado e tão simples quanto um contrato de 300 páginas. O mundo civilizado, esse conceito que se repete desde o Iluminismo, continua a acreditar que o comércio é o caminho para a paz. Mas, como diria Voltaire, “o comércio é o que torna os homens dependentes uns dos outros; e essa dependência é o princípio da paz” (Dictionnaire Philosophique, 1764). A diferença é que, hoje, essa dependência é também o princípio da guerra económica. E assim, entre tarifas e consultas, o planeta continua a girar não em torno do sol, mas em torno do lucro.
Bibliografia
Smith, Adam. The Wealth of Nations. London: W. Strahan and T. Cadell, 1776.
Sun Tzu. The Art of War. China, século V a.C.
Polanyi, Karl. The Great Transformation. Beacon Press, 1944.
Stiglitz, Joseph. Globalization and Its Discontents. W.W. Norton, 2002.
Keynes, John Maynard. The General Theory of Employment, Interest and Money. Macmillan, 1936.
Kant, Immanuel. Perpetual Peace. Cambridge University Press, 1795.
Veblen, Thorstein. The Theory of the Leisure Class. Macmillan, 1899.
Freyre, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Global Editora, 1933.
Fukuyama, Francis. The End of History and the Last Man. Free Press, 1992.
Chomsky, Noam. Hegemony or Survival. Metropolitan Books, 2003.
Benjamin, Walter. Theses on the Philosophy of History. 1940.
Hirschman, Albert. The Rhetoric of Reaction. Harvard University Press, 1991.
Wilde, Oscar. The Importance of Being Earnest. London: Leonard Smithers, 1895.
Voltaire. Dictionnaire Philosophique. Paris, 1764.
Organização Mundial do Comércio (OMC). Documentos oficiais, 2024-2026
Jorge Rodrigues Simão 2026

