Há cidades que se distinguem pela elegância das suas instituições, pela robustez das suas políticas públicas ou pela clarividência dos seus dirigentes. E depois há Hong Kong, que, perante um calor digno das caldeiras de Vulcano, decidiu que o mais prudente seria manter o alerta de stress térmico no nível amarelo, o mais baixo, como quem observa um incêndio florestal e conclui que se trata apenas de um piquenique mal planeado.

No dia 9 de Agosto, a metrópole registou 36,9 °C na sede do Observatório, a temperatura mais elevada desde que há registos, iniciados em 1884. Em Sheung Shui, o termómetro chegou aos 39,7 °C, valor que, em qualquer sociedade dotada de sensatez, faria soar sirenes, abrir centros de refrigeração e distribuir leques como se fossem medalhas ao mérito civil. Mas não, o sistema oficial, tutelado pelo Departamento de Trabalho, manteve-se num amarelo lânguido, quase decorativo, como se o calor fosse apenas uma inconveniência estética.

O Comissário do Trabalho, Sam Hui Chark-shum, reconheceu que o sistema é “mais sensível ao clima abafado do que à temperatura real”. A frase, digna de figurar num compêndio de administração pública surrealista, recorda a célebre advertência de Max Weber, quando este alertava para a tendência das burocracias de se tornarem “máquinas que funcionam por si mesmas, independentemente da realidade que deveriam servir” (Economy and Society, 1922). Hong Kong, ao que parece, decidiu levar Weber ao extreme de que o calor real é irrelevante; o que importa é o calor que o sistema acha que existe.

O sistema de alerta de stress térmico foi concebido para proteger trabalhadores ao ar livre, garantindo períodos de descanso adicionais em alerta amarelo e suspensão de actividades em alerta vermelho ou negro. Porém, como explicou Sam Hui, “o stress térmico nem sempre acompanha a variação real da temperatura”.

A frase mereceria ser bordada em pano e pendurada à entrada do Departamento de Trabalho, como testemunho da criatividade conceptual da administração local. Afinal, se o stress térmico não acompanha a temperatura, acompanha o quê? O humor do funcionário de serviço? A disposição das nuvens? A vontade política do dia?

A ironia, contudo, não é apenas literária; é factual. A ponderação do sistema inclui temperatura, humidade, velocidade do vento e radiação solar, numa fórmula que, segundo as autoridades, está “adequada ao clima da região”. O problema é que, como diria Hannah Arendt, “a adequação é frequentemente o primeiro refúgio da irresponsabilidade” (The Human Condition, 1958). Em Hong Kong, a adequação tornou-se desculpa para a inacção.

O episódio revela algo mais profundo que é a incapacidade estrutural de certas administrações para reconhecer a realidade quando esta se apresenta de forma demasiado evidente. A temperatura sobe? Os trabalhadores desmaiam? Os hospitais registam mais casos de exaustão? Nada disso importa se o algoritmo meteorológico decidir que o vento soprou com ligeira boa vontade.

A situação lembra a célebre observação de George Orwell, quando este escreveu que “ver o que está diante do nariz requer uma luta constante” (Facing Unpleasant Facts, 1937). Em Hong Kong, essa luta parece perdida pois o nariz arde, mas o alerta permanece amarelo.

Enquanto Hong Kong se debatia com o calor, o tufão Dolphin avançava pelo interior da China, já degradado a tempestade tropical, mas ainda suficientemente vigoroso para justificar um alerta laranja, o segundo nível mais elevado. Às 05:00, o Centro Meteorológico Nacional localizou o centro da tempestade sobre Anqing, com ventos de 20 metros por segundo. As previsões indicavam deslocação para oeste-noroeste a 15-20 km/h, acompanhada de chuvas intensas que poderiam acumular 250 a 300 mm em províncias como Henan.

A China, ao contrário de Hong Kong, não hesitou e manteve o alerta, reforçou medidas de prevenção e preparou-se para ventos fortes, granizo e possíveis tornados. Em Xangai, até à tarde de 10 de Agosto, tinham sido recebidos 5.271 pedidos de indemnização, com prejuízos estimados em 94,8 milhões de yuan, segundo a CCTV.

A diferença é notória pois onde Hong Kong vê calor e decide que não é caso para alarme, a China vê chuva e mobiliza o Estado. Como diria John Stuart Mill, “a administração pública é o espelho da maturidade de uma sociedade” (On Liberty, 1859). O espelho, neste caso, devolve imagens muito distintas.

O calor extremo não é apenas um fenómeno meteorológico; é uma experiência social, económica e laboral. Em ambientes fechados sem ar condicionado, a capacidade de arrefecimento do corpo cai drasticamente, mesmo com temperaturas inferiores às registadas ao ar livre.

Sam Hui sublinhou que “o risco para a saúde pode ser maior do que num espaço aberto e bem ventilado com temperatura mais elevada”. A afirmação, embora correcta, revela a contradição central pois se o risco é maior, por que motivo o alerta permaneceu no nível mais baixo?

A resposta, ainda que não declarada, é simples; porque o sistema não foi concebido para reagir ao real, mas para reagir ao ideal. E o ideal, como sabemos, é sempre mais confortável do que o real.

O sistema foi desenvolvido pelo Observatório de Hong Kong e pela Universidade Chinesa de Hong Kong, instituições respeitáveis que, no entanto, parecem ter criado uma ferramenta mais apta para seminários académicos do que para proteger trabalhadores expostos ao sol. A ciência, quando capturada pela burocracia, transforma-se em ornamento. Como escreveu Karl Popper, “o conhecimento científico não é dogma, mas conjectura” (The Logic of Scientific Discovery, 1934). Em Hong Kong, a conjectura tornou-se dogma, e o dogma tornou-se obstáculo.

O Comissário prometeu rever o sistema, tornando-o mais sensível a altas temperaturas e forte radiação solar. É um gesto louvável, ainda que tardio, como quem decide instalar extintores depois de a casa ter ardido.

As autoridades previam que o alerta subisse para vermelho, mas tal não aconteceu. A frase, repetida pela imprensa local, é quase poética em que o alerta queria subir, mas não conseguiu. Talvez estivesse cansado. Talvez estivesse com calor.

O episódio de Hong Kong insere-se num contexto global de alterações climáticas, onde recordes de temperatura se tornam rotina e onde sistemas de alerta precisam de ser mais ágeis, mais realistas e menos dependentes de fórmulas que ignoram o óbvio.

Como alertou Kevin Trenberth, “o aquecimento global não é uma previsão: é uma observação” (Journal of Climate, 2011). E como reforçou James Hansen, “os sinais estão por todo o lado, mas a vontade política continua a ser o elo fraco” (Storms of My Grandchildren, 2009). Hong Kong, ao manter o alerta amarelo perante temperaturas históricas, demonstrou que o elo fraco não é apenas político; é também administrativo.

O calor extremo de Hong Kong não foi apenas um fenómeno meteorológico mas um teste à capacidade administrativa da cidade que, infelizmente, não foi superado.

A revisão anunciada do sistema de alerta é necessária, mas revela uma verdade desconfortável de que o calor não é o único problema; o problema é a incapacidade de reconhecer o calor.

Como diria Mark Twain, “a história não se repete, mas rima” (Following the Equator, 1897). Em Hong Kong, a rima é clara de calor extremo, alerta mínimo, promessa de revisão. Resta saber se, da próxima vez que o termómetro subir, o alerta decidir finalmente acordar.

Bibliografia

Arendt, Hannah. The Human Condition. University of Chicago Press, 1958.

Hansen, James. Storms of My Grandchildren. Bloomsbury, 2009.

Mill, John Stuart. On Liberty. London: Parker & Son, 1859.

Orwell, George. Facing Unpleasant Facts. Harcourt, 1937.

Popper, Karl. The Logic of Scientific Discovery. Routledge, 1934.

Trenberth, Kevin. “Changes in precipitation with climate change.” Journal of Climate, 2011.

Weber, Max. Economy and Society. University of California Press, 1922.

CCTV – China Central Television, relatórios meteorológicos e económicos, 2024-2026.

Hong Kong Observatory – Registos oficiais de temperatura, 1884-2026.

Jorge Rodrigues Simão 2026