A ordem internacional contemporânea tem algo de tragicómico e desmorona-se à vista de todos, mas a coreografia diplomática global insiste em manter o sorriso congelado, como se estivéssemos perante uma peça de teatro amador onde o cenário arde, mas os actores continuam a declamar versos como se nada fosse. A humanidade, sempre tão criativa na arte de negar o óbvio, decidiu transformar o colapso da ordem mundial num espectáculo de normalidade. E, como em qualquer espectáculo mal ensaiado, o público que somos nós finge que acredita, porque admitir o contrário implicaria reconhecer que ninguém está verdadeiramente no controlo.

A primeira razão para este desmoronamento silencioso reside na erosão das instituições que, durante décadas, serviram de pilares ao sistema internacional. Organizações criadas para garantir estabilidade transformaram-se em arenas de disputa simbólica, onde cada Estado tenta impor a sua narrativa enquanto finge respeitar regras que ninguém leva a sério. A retórica permanece, mas o conteúdo evaporou-se. É como assistir a uma reunião de condomínio onde todos concordam que o prédio está impecável, apesar das infiltrações, das paredes rachadas e do elevador que ameaça cair. A diplomacia global tornou-se exactamente um condomínio de potências que discutem quem deve pagar a pintura da fachada enquanto o edifício ameaça ruir.

A segunda razão é a ascensão de actores que não têm qualquer interesse em preservar a ordem existente. Não porque sejam particularmente revolucionários, mas porque perceberam que o sistema foi desenhado para beneficiar outros. A ordem internacional, outrora apresentada como universal, revela-se agora como aquilo que sempre foi; um arranjo conveniente para quem estava no topo. Quando novos actores emergem e reclamam espaço, os antigos guardiões da ordem entram em modo de negação, como aristocratas decadentes que insistem em manter o baile enquanto o tecto do palácio desaba. O resultado é previsível como tensão, competição, e uma sucessão de crises que todos descrevem como “inesperadas”, apesar de serem tão previsíveis quanto a chegada do inverno.

A terceira razão é a incapacidade colectiva de lidar com problemas globais que exigem cooperação real. Mudanças climáticas, pandemias, crises económicas, fluxos migratórios requerem coordenação, mas o mundo prefere a ilusão da soberania absoluta, como se cada Estado pudesse resolver sozinho desafios que ignoram fronteiras. A ordem internacional desmorona-se porque foi construída sobre a ficção de que os interesses nacionais podem sempre ser conciliados com o bem comum. Hoje, essa ficção está exposta e cada país corre para proteger o seu quintal, mesmo que implique incendiar o quintal do vizinho. E, claro, todos fingem que esta atitude é perfeitamente racional.

A quarta razão é o retorno da força como instrumento legítimo de política externa. Durante anos, repetiu-se que o uso da força era um resquício de um passado bárbaro. No entanto, bastou a primeira oportunidade para que vários Estados recuperassem o gosto por tanques, mísseis e demonstrações musculadas. A ordem internacional, que supostamente se baseava em normas e regras, revela-se afinal um verniz fino que se estala ao primeiro sinal de pressão. E, como sempre, os discursos oficiais continuam a falar de “diálogo”, “mediação” e “respeito pelo direito internacional”, enquanto na prática se joga um xadrez brutal onde as peças são países inteiros.

A quinta razão é a transformação da informação em arma. A ordem internacional dependia de alguma previsibilidade, mas a era digital trouxe consigo uma cacofonia permanente onde factos, rumores e propaganda se misturam num caldo tóxico. A verdade tornou-se um produto de nicho, consumido apenas por quem ainda tem paciência para a procurar. Os Estados descobriram que podem manipular percepções com a mesma facilidade com que se publica uma fotografia nas redes sociais. E, assim, a ordem internacional dissolve-se não apenas por acções concretas, mas também pela erosão da confiança, esse elemento intangível que, afinal, sustentava mais do que qualquer tratado.

A sexta razão é a crise de legitimidade das democracias liberais, que durante décadas se apresentaram como modelo universal. Hoje, enfrentam divisões internas, polarização extrema e uma incapacidade quase artística de produzir consensos mínimos. Quando as democracias não conseguem governar-se, dificilmente podem liderar a ordem internacional. E, no entanto, continuam a proclamar-se faróis de estabilidade, como se o mundo não estivesse a assistir ao espectáculo de instituições paralisadas, sociedades fragmentadas e elites políticas que parecem viver numa realidade paralela. A ordem internacional desmorona-se porque os seus principais arquitectos perderam a autoridade moral para a defender.

A sétima razão é a ascensão de nacionalismos que rejeitam qualquer forma de cooperação multilateral. Estes movimentos, embalados por discursos inflamados e promessas de grandeza perdida, tratam a ordem internacional como um obstáculo à soberania. E, como qualquer obstáculo, deve ser removido. O problema é que, ao remover esse obstáculo, também removem os mecanismos que impediam o caos. Mas isso pouco importa pois o objectivo é alimentar identidades feridas, não construir soluções. Assim, a ordem internacional desfaz-se lentamente, corroída por discursos que transformam a cooperação em fraqueza e o isolamento em virtude.

A oitava razão é a economia global, que se tornou simultaneamente interdependente e profundamente desigual. A promessa de prosperidade partilhada revelou-se uma ilusão para muitos, e essa frustração alimenta tensões que se reflectem na política internacional. A ordem económica, que deveria ser um motor de estabilidade, tornou-se um campo de batalha onde cada Estado tenta proteger as suas cadeias de abastecimento, as suas indústrias e os seus empregos. A globalização, outrora celebrada como inevitável, é agora tratada como uma ameaça. E, claro, todos fingem que esta mudança é apenas um “ajustamento”, quando na verdade é um sinal claro de que o sistema está a implodir.

A nona razão é a ausência de liderança global. Durante décadas, houve sempre alguém disposto a assumir o papel de árbitro, mesmo que por interesse próprio. Hoje, ninguém quer ou consegue desempenhar essa função. As grandes potências estão demasiado ocupadas com os seus problemas internos, e as potências emergentes ainda não têm capacidade para assumir responsabilidades globais. O resultado é um vazio de poder que alimenta instabilidade. A ordem internacional desmorona-se porque não há quem a defenda, quem a renove ou quem a reinvente. E, como em qualquer estrutura abandonada, a degradação acelera.

A décima razão é a normalização do cinismo. Os Estados nem se dão ao trabalho de disfarçar contradições. Falam de direitos humanos enquanto vendem armas a regimes repressivos. Defendem a paz enquanto financiam conflitos. Prometem cooperação enquanto sabotam acordos. A ordem internacional desmorona-se porque foi capturada por um cinismo tão profundo que  ninguém acredita verdadeiramente nos princípios que a sustentavam. E, quando a crença desaparece, o sistema torna-se uma casca vazia.

No meio deste colapso gradual, o mais fascinante é a capacidade colectiva de fingir que nada está a acontecer. As cimeiras continuam, os comunicados são emitidos, os discursos repetem fórmulas gastas. A diplomacia global tornou-se um ritual vazio, uma liturgia secular onde todos recitam palavras que perderam significado. Fingir tornou-se uma estratégia de sobrevivência ao admitir o desmoronamento implicaria enfrentar a necessidade de reconstrução, e ninguém quer assumir esse fardo.

A ordem internacional está a desmoronar-se porque chegou ao fim de um ciclo histórico. O mundo mudou, mas as estruturas que o governam não acompanharam essa mudança. Continuam presas a lógicas do século passado, incapazes de responder a desafios do presente. E, enquanto não surgir uma nova arquitectura global mais inclusiva, realista e adaptada à complexidade contemporânea o desmoronamento continuará. Lentamente, silenciosamente, mas inexoravelmente.

O fingimento colectivo é apenas a cortina que esconde o inevitável. Mas, como em qualquer teatro, a cortina acabará por cair. E, quando isso acontecer, o mundo terá de enfrentar a realidade nua e crua de que a ordem internacional não colapsou de repente; foi sendo corroída por décadas de incoerências, desigualdades, ilusões e negações. O desmoronamento não é um acidente. É o resultado lógico de um sistema que se recusou a adaptar-se.

A pergunta que resta é simples: estaremos preparados para o que vem depois? A resposta, infelizmente, é tão óbvia quanto desconfortável. Mas, fiel ao espírito da época, continuaremos a fingir que não.

Bibliografia

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