A aproximação do acordo que promete encerrar a guerra no Médio Oriente tem o mesmo encanto de um truque de ilusionismo mal ensaiado que todos fingem acreditar, sabem que é falso, e ainda assim aplaudem porque não suportam mais o espectáculo. A diplomacia regional transformou‑se num teatro onde cada protagonista tenta salvar a face, mesmo que tenha perdido o corpo inteiro. Os líderes preparam sorrisos de catálogo, os fotógrafos afinam lentes para captar o momento histórico que em que ninguém acredita, e o mundo observa com a resignação de quem viu demasiadas versões da mesma peça. O palco continua a arder, mas a prioridade é garantir que a cortina cai com elegância.
A diplomacia parece “um teatro de marionetas” onde ninguém admite o incêndio. A verdade é que nenhum dos actores envolvidos tem vocação para santo. Todos querem algo, todos perderam algo, e todos se preparam para transformar derrotas em vitórias narrativas. O acordo não é um tratado de paz; é um catálogo de danos acompanhado de um manual de sobrevivência política. E, como qualquer catálogo, cada país tenta destacar o que parece mais vendável, escondendo o que está partido.
Os Estados Unidos surgem com a habitual postura de potência indispensável, aquela figura paternal que chega tarde, derruba um vaso e insiste que salvou a festa. Afirmam ter restaurado a estabilidade regional, embora o próprio documento reconheça que “a guerra expôs limitações militares, diplomáticas e estratégicas” que Washington preferia manter escondidas. Ganham a oportunidade de proclamar liderança num momento em que a sua credibilidade internacional está desgastada, mas perdem a aura de omnipotência que durante décadas sustentou a sua influência. A incapacidade de controlar aliados, conter adversários ou impor linhas vermelhas coerentes tornou‑se demasiado evidente. O acordo funciona como maquilhagem geopolítica que cobre imperfeições, mas não rejuvenesce.
Israel, por seu lado, tenta equilibrar a retórica da vitória com a realidade amarga de ter visto a sua invencibilidade estilhaçada. Sobreviveu, mas à custa de revelar fragilidades profundas. A dependência dos Estados Unidos tornou‑se ainda mais explícita, e a percepção regional de que pode ser pressionado ou forçado a negociar altera o equilíbrio psicológico que sustentava a sua estratégia de dissuasão. O país ganhou tempo, mas perdeu a aura. A sociedade israelita, fragmentada, terá de lidar com a sensação de que a guerra não trouxe respostas, apenas mais incertezas.
O Irão, simultaneamente alvo e autor de ataques, transforma cada perda material em combustível ideológico. Teerão ganhou “o estatuto de actor incontornável”, e isso basta para o regime proclamar vitória. A economia está em ruínas, as infra‑estruturas militares foram atingidas, os aliados estão desgastados, mas nada disso impede o governo iraniano de apresentar o acordo como triunfo espiritual. O regime tem uma habilidade singular para converter destruição em narrativa de resistência, e continuará a fazê‑lo enquanto a população alternar entre resignação e desespero. O acordo dá‑lhe relevância, mas não lhe devolve capacidade operacional.
A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos oscilam entre indignação pública e pragmatismo privado. Condenam o Irão com veemência, mas evitam confrontos directos, porque sabem que qualquer escalada pode comprometer os seus projectos de modernização. Ganham tempo para retomar investimentos e reforçar alianças discretas, mas perdem a oportunidade de ver o regime iraniano significativamente enfraquecido. Os ataques que sofreram expuseram vulnerabilidades que os seus sistemas de defesa milionários não conseguiram esconder. Descobriram, que “drones baratos podem humilhar sistemas de defesa caríssimos”. Nada mais humilhante para quem investe fortunas em tecnologia militar.
O Líbano continua a ser o país que paga a conta sem ter jantado. Arrastado para o conflito pelas acções do Hezbollah, enfrenta mais uma ronda de destruição económica e social. O governo, frágil e dividido, tenta apresentar o acordo como oportunidade de reconstrução, mas ninguém acredita. O país vive num ciclo de promessas não cumpridas, e o acordo não altera essa realidade. Ganha talvez algum financiamento internacional, mas perde mais um pedaço da sua frágil soberania.
A Síria permanece num limbo geopolítico. Ainda a recuperar de uma guerra civil devastadora, volta a ser palco de ataques e contra‑ataques. O acordo oferece apenas uma pausa temporária, insuficiente para atrair investimento ou restaurar estabilidade. O regime continuará a proclamar firmeza, mas a verdade é que o país está demasiado destruído para recuperar sem uma transformação estrutural que ninguém está disposto a financiar.
A Jordânia, tradicional bastião de moderação, vê a sua vulnerabilidade exposta por ataques que abalam a confiança da população num Estado que sempre viveu da aparência de estabilidade. Ganha a oportunidade de regressar ao papel de mediador sensato, mas perde a sensação de segurança que mantinha há décadas. O Iraque continua a ser o tabuleiro onde todos jogam, dividido entre influências externas que o impedem de exercer soberania plena. O acordo reduz a pressão militar, mas não altera a realidade de que o país é utilizado como extensão dos conflitos alheios.
A Turquia, fiel ao seu estilo, transforma a crise em oportunidade. Posiciona‑se como mediadora indispensável, reforça a sua influência e evita compromissos que limitem a sua margem de manobra. O Egipto tenta recuperar relevância, mas está demasiado absorvido pelos seus problemas internos para desempenhar o papel de potência regional que outrora teve.
É neste cenário que Bahrein e Kuwait surgem como exemplos paradigmáticos de Estados pequenos que sofrem impactos desproporcionados. O Bahrein, arquipélago à sombra da Arábia Saudita e à mira do Irão, volta a ser lembrado da sua vulnerabilidade estrutural. Os ataques iranianos funcionam como recados estratégicos, e o país percebe que a presença militar americana e o apoio saudita não garantem segurança absoluta. Ganha algum alívio imediato, mas perde a ilusão de autonomia e vê exposta a sua dependência crónica de aliados maiores.
O Kuwait, marcado pelo trauma da invasão de 1990, encara cada crise regional como ameaça existencial. O acordo devolve‑lhe previsibilidade, mas obriga‑o a alinhar‑se mais claramente com determinados blocos, sacrificando a neutralidade que cultivou durante décadas. A percepção de vulnerabilidade regressa, lembrando ao país que, apesar de alianças sólidas, continua exposto a dinâmicas que não controla.
Enquanto os grandes actores encenam vitórias e proclamam estabilidade, Bahrein e Kuwait enfrentam a realidade nua de que são demasiado pequenos para moldar o rumo dos acontecimentos, mas suficientemente estratégicos para sofrerem as suas consequências. O acordo oferece‑lhes tempo, mas não segurança. A rivalidade entre Irão, Arábia Saudita, Israel e Estados Unidos continuará a pairar sobre eles como ameaça constante, pronta a reacender‑se ao menor sinal de instabilidade.
No fundo, o acordo não resolve rivalidades históricas nem elimina ameaças; limita‑se a suspender temporariamente um conflito que todos sabem estar longe de terminar. Cada país tentará apresentar o saldo como positivo, mas a verdade é que o maior ganho é apenas a possibilidade de respirar e, no Médio Oriente, tal continua a ser um luxo.
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