Muitos destes textos estavam no baú do esquecimento. Não por falta de valor, mas por excesso de tempo. Foram escritos em noites longas, em tardes suspensas, em momentos em que a urgência de dizer era maior do que a vontade de mostrar. Ficaram guardados não por vergonha, mas por respeito. Porque há palavras que precisam de maturar, como o vinho e como o silêncio. Decidi rever. Não com olhos de censura, mas com olhos de escuta. Voltei a cada linha como quem visita uma casa antiga; com cuidado, memória e espanto. Algumas frases pediram para ficar como estavam. Outras imploraram por mudança. E houve aquelas que só agora fizeram sentido. Actualizei. Não para apagar o passado, mas para dialogar com o presente. Os textos ganharam novas cores, novos ritmos, novos silêncios. Mantiveram a alma, mas vestiram-se de tempo. Porque escrever é isso; um gesto que se prolonga, que se transforma e que se renova. E publiquei. Não por vaidade, mas por partilha. Porque há palavras que não nasceram para o segredo. Há ideias que só respiram quando lidas. E há emoções que, ao serem reconhecidas por outros, encontram finalmente o seu lugar. Estes textos são fragmentos de mim; de quem fui, de quem sou, de quem estou a aprender a ser. São testemunhos de uma travessia interior, de uma escuta demorada e de uma escrita que resistiu ao esquecimento. E agora, finalmente, estão prontos para existir fora do baú.