JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Criatividade e investigação como chaves do sucesso chinês

 china20211

PERSPECTIVAS-Criatividade e investigação como chaves do sucesso chinês- HojeMacau - 28.01.2021

“Westerners tend to divide the political world into "good" democracies and "bad" authoritarian regimes. But the Chinese political model does not fit neatly in either category. Over the past three decades, China has evolved a political system that can best be described as "political meritocracy."

Daniel A. Bell

The China Model: Political Meritocracy and the Limits of Democracy

 

A realidade que importa não é a verdade que se diga, mas no que se acredita. Há uma única história, que exemplifica pelo menos dois dos componentes que determinam o poder disruptivo da nova potência tecnológica do mundo, que é a criatividade e o financiamento da investigação. Angelo Yu fundou a sua empresa, a Pix Moving, que produz carros cujos componentes são criados com impressoras 3D. A sua empresa pode facilmente viver e prosperar mesmo no período de impostos americanos (que afectam a maioria das exportações chinesas para a América), porque a Pix Moving fornece aos seus clientes americanos "modelos" directamente na nuvem como carros industriais e agrícolas, encomendados por clientes particularmente ricos,  e que são produzidos nos Estados Unidos e não na China.

 

Além disso, poupa muito dinheiro pois tudo está na nuvem, não há necessidade de transporte, rotas de navegação, navios, contentores, tarifas alfandegárias. Para reduzir o número de peças necessárias para fazer um carro, Yu e a sua equipa voltaram-se para o "design generativo". Funciona de forma simples pois os programadores da Pix Moving estabelecem determinados parâmetros, tais como o tamanho do veículo e o peso máximo que este deve transportar. Depois deixam os computadores funcionar livremente para determinar o que pode ser criado dentro dessas restrições. Os algoritmos permitem que a Inteligência Artificial (IA) aprenda as técnicas e refine os resultados. Os engenheiros nessa altura analisam as opções e escolhem as melhores para embalar o "modelo" requerido pelo cliente. É de ficar tão surpreendido a ponto de imaginar que se Henry Ford ainda estivesse vivo teria construído carros usando IA. É verdade, mas desde que Henry Ford tivesse vivido na China.

O sucesso da empresa de Yu, na realidade, não é acidental e não depende apenas da sua criatividade, pois o arranque de Yu é um pequeno exemplo dentro de um universo que é desejado, criado e impulsionado pela liderança chinesa, que vai para além da criatividade de empresas individuais. E é aqui que encontramos a segunda chave para compreender o desenvolvimento tecnológico da China, que é o financiamento da investigação desejado pelo Estado e o consequente contexto favorável para o florescimento de startups e empresas nesse campo. O governo chinês acredita que a robótica e outras tecnologias de ponta, tais como as utilizadas pela Pix são capazes de oferecer a possibilidade não só de empregar menos mão-de-obra e assim poupar custos, mas também de melhorar a produção e a competitividade internacional. É por isso que destina enormes recursos e energia à "produção inteligente", o coração do programa Made in China 2025 do governo, que visa promover o desenvolvimento de indústrias estratégicas e recuperar o atraso em relação aos concorrentes ocidentais. Não é coincidência que a China tenha recentemente fornecido às suas empresas robôs industriais a um ritmo mais rápido do que qualquer outro país. Em 2018, de acordo com dados da Federação Internacional de Robótica com sede em Frankfurt, cerca de cento e cinquenta e quatro mil robôs foram vendidos a fábricas chinesas, mais do que à Europa e Américas juntas.

Ao partir da guerra comercial entre a China e os Estados Unidos (que esconde a verdadeira questão em jogo, a corrida por 5G), alguns analistas americanos lembraram que o ex-presidente Donald Trump (e, de uma forma mais geral, a quem quer que se sente na Sala Oval da Casa Branca no futuro) de que a verdadeira desvantagem dos americanos em relação à China é que os Estados Unidos desistiram, nos anos de 1980, de fazer o que tinham feito desde os anos de 1950, ou seja, investir na inovação, educação e investigação. Para compreender até que ponto os Estados Unidos perderam terreno a este respeito, basta uma ida ao passado por um momento. Em 1938, em vésperas da II Guerra Mundial, os Estados Unidos (governos federal e estaduais juntos) gastaram cerca de 0,075 por cento do PIB em investigação científica (uma quantia mínima).

Em 1944, os governos federal e estaduais utilizaram quase 0,5 por cento do PIB que traduz um aumento de sete vezes que foi utilizado para desenvolver sistemas de radar, penicilina, e a bomba atómica. Era uma tendência que estava destinada a durar e a expandir-se juntamente com a influência americana no mundo. Mais tarde, em tempo de paz e durante a Guerra Fria, o governo dos Estados Unidos canalizou recursos públicos para a investigação científica numa escala totalmente nova. De 1940 a 1964, o financiamento federal para a investigação e desenvolvimento aumentou vinte vezes. Este é o período em que nasceram os modernos produtos farmacêuticos, micro electrónicos, computadores digitais, satélites, GPS, Internet, e muito mais. Mais uma vez, uma série de televisão de sucesso vem em socorro para narrar esta fase que é o Mad Men, a história de uma empresa de publicidade nos anos de 1960, que permite-nos compreender alguns aspectos do sonho americano, tais como a capacidade de transmitir aos potenciais consumidores a necessidade de possuir um produto antes de explicar a sua utilização.

A América, então, foi o país que inventou e arrastou o mundo por detrás dos seus gostos, da melhoria das condições económicas das suas famílias, de um processo envolvente que hoje nos parece retrógrado mas que na altura parecia futurista. Uma América que se propagou no resto do mundo também através da sua cultura de massa específica, produzida pela majestosa máquina de tal poder fabricada nos “Made in USA”, frequentemente veiculada por Hollywood. Este processo foi acompanhado por outros pois as primeiras empresas que se tornariam sinónimo de inovação, e a emergiram como a IBM, AT&T e Xerox. A base do sonho americano foi, em suma, o enorme esforço económico estatal para financiar a investigação, as universidades, e a consequente e constante produção de inovação. Foi isto que os Estados Unidos deixaram de fazer, e é nesta falta que deve ser procurado o fosso que parece existir entre o Ocidente e o Oriente. No início da década de 1980, começou um lento declínio pois a despesa pública em investigação e desenvolvimento desceu para 1,2 por cento do PIB; em 2017 caiu para 0,6 por cento.

Actualmente, se utilizarmos a percentagem do PIB dedicada à investigação como valor de base, nada menos que nove países superam os Estados Unidos. Até 2025, por exemplo, segundo uma análise da investigação médica publicada no "The Journal of the American Medical Association", a China irá substituir os Estados Unidos como líder mundial em investigação e desenvolvimento farmacêutico. Esta é, portanto, a parábola histórica do financiamento da investigação nos Estados Unidos. Mas o que é que a China fez entretanto? Na década de 1960, tal como os muitos nos Estados Unidos estavam a enlouquecer com os seus novos estilos publicitários, a Revolução Cultural na China tinha feito parar o ensino superior. As escolas e universidades tinham sido substituídas pela obrigação de os rapazes irem para o campo para aprenderem competências revolucionárias com os camponeses. Há uma geração atrás, em suma, a actual posição da China na cena mundial teria sido inimaginável.

Só depois da morte de Mao, quando a liderança de Deng Xiaoping tomou conta do país, é que o sistema escolar chinês começou a ser restaurado; essa mesma liderança abriu a fase que ficou na história como o período de "reforma e abertura" entre os anos de 1980 e o final dos anos 1990 e o governo fez crescer a sua economia, elevando o nível de vida da sua população, produzindo e exportando bens globalmente competitivos, também graças aos investimentos de empresas estrangeiras. Esses foram os anos que assistiram ao crescimento retumbante dos investimentos e progressos na ciência. O ano de 1990 a liderança chinesa decidiu consolidar a lealdade dos quadros intelectuais através da atenção que anteriormente tinha sido dada sobretudo às classes produtoras, aos trabalhadores e especialmente aos camponeses.

Dar importância à classe intelectual, garantindo o crescimento e a possibilidade de realizar investigação com fundos e em locais ad hoc, permitiu estabelecer duas apostas fundamentais para a sua actual liderança e força económica pois por um lado, ao reservar um papel central para a ciência, acabou por levar os chamados tecnocratas ao poder na primeira década dos anos 2000; por outro, colocou toda uma geração de intelectuais, cientistas e professores universitários sob controlo ideológico. Os resultados têm sido espantosos pois de 1990 a 2010, as matrículas no ensino superior aumentou oito vezes e o número de diplomados aumentou de trezentos mil para quase três milhões por ano.

Durante o mesmo período, a quota da China no total de matrículas no ensino superior aumentou de 6 por cento para 17 por cento do total global. Em 2017, oito milhões de estudantes formaram-se em universidades chinesas. Em comparação, cerca de três milhões de estudantes formaram-se em universidades americanas no mesmo ano. A qualidade da educação científica na China pode ser debatida, mas os números não podem. Porque em 1990, o número de doutoramentos nos Estados Unidos era vinte vezes maior do que na China. Apenas duas décadas mais tarde, a China ultrapassou os Estados Unidos nessa métrica, com vinte e nove mil novos doutoramentos em 2010 em comparação com vinte e cinco mil nos Estados Unidos. Actualmente, seis universidades chinesas estão entre as 100 melhores universidades do mundo, de acordo com a classificação do Times Higher Education. Através da experiência de Angelo Yu, vimos que a criatividade renovada da China se desenvolve graças a um ambiente favorável proporcionado pelo Estado, que financia em grande parte a investigação e a indústria tecnológica e podemos considerar como uma passagem do testemunho do financiamento da investigação do Ocidente para a China.

A vantagem actual da China reside também num terceiro factor que é o seu sistema meritocrático. Fazendo a comparação entre os sistemas filosóficos oriental e ocidental existe uma suposição bastante intrigante pois no Ocidente, sempre se esteve habituado a raciocinar com uma situação "ideal" em mente e na China não existe e nunca existiu metafísica. Os chineses não se perguntam, filosoficamente, "o que é isto". Eles perguntam "como posso fazer isto"? há quem chame praticabilidade. Há quem acredite, por exemplo, que mesmo o conceito de "tempo" é fundamental para compreender a actual atitude chinesa. Para os Ocidentais, o tempo é "eterno", mas não para os chineses. É por isso que planeiam estabelecendo objectivos e fases, sabendo que o tempo não é eterno. E está a mudar.

A palavra-chave "revolução" em chinês é "remoção de um mandato" e destaca a concepção de uma sociedade em contínua transformação. E como é tratada esta característica, que resume milénios de história chinesa? Alguns estudiosos acreditam que essa transformação contínua é governada por outro princípio prático firmemente enraizado na cultura chinesa que é a meritocracia, a própria pedra angular da diferença entre a China e o Ocidente. Os estudantes precisam de pontuações extraordinárias para passarem nos exames nacionais e serem admitidos numa universidade de elite que forma futuros líderes, competindo ferozmente pela admissão. Os estudantes só são admitidos com elevado desempenho e só depois de passarem por uma verificação minuciosa dos antecedentes.

Aqueles que querem "servir o povo" têm de passar nos exames de estado com milhões de candidatos a um cargo, e uma vez "dentro" têm de passar em numerosas avaliações por parte dos superiores para se deslocarem para “cima”. Têm de provar as suas capacidades durante as suas posições no governo local e também passar nos testes de carácter. No entanto, o sistema de escolha de funcionários na China funciona bem. O país está a realizar, progredir e a estudar estratégias para se renovar. As vantagens da meritocracia chinesa são claras, dizem os apoiantes desta tese, porque os quadros passam por um processo de selecção cansativo e só os com um registo de excelente desempenho conseguem atingir os mais altos níveis. Em vez de perder tempo e dinheiro em campanhas eleitorais sem sentido, os líderes podem tentar melhorar os seus conhecimentos e resultados. A China envia frequentemente os seus líderes para aprenderem com as melhores práticas políticas no estrangeiro.

Tal é inegavelmente algo que não se encontra no horizonte do Ocidente e que vale a pena investigar. A China é uma potência económica com as suas próprias peculiaridades mas nunca produzirá líderes incapazes à maneira de um Bush ou Trump nos Estados Unidos ou Noda no Japão. Tal como os créditos sociais são possível traçar as raízes do princípio da meritocracia na história chinesa pois a sua origem reside na história e na dinâmica dos exames imperiais. Foram instituídos pelo Imperador Wu da dinastia Han (141-87 a.C.), que tinha desempenhado um papel de liderança na abertura da China à "Rota da Seda". Com a dinastia Tang, os exames tornaram-se uma condição necessária para aceder à posição de funcionário público, e depois amadureceram definitivamente no período Ming (passando também por uma fase em que eram uma espécie de solução para o poder excessivo aristocrático pois nesse caso, a "meritocracia" visava derrotar privilégios de natureza hereditária).

O principal ideal político, partilhado por funcionários governamentais, reformadores, intelectuais é a chamada meritocracia democrática vertical, ou seja, "uma democracia nos níveis inferiores de governo" contra um sistema político que recompensa a meritocracia nos níveis superiores da estrutura política e institucional do país. Uma meritocracia que sanciona a liturgia da política interna e se torna o guia da política externa, pois a China que o Ocidente tem de lidar com muito mais frequência do que no passado está a seguir esta rota. Pode, portanto, parecer que a China é o modelo meritocrático por excelência. Mas não é exactamente o caso, pois os julgamentos e condenações sucedem-se devido a uma realidade multifacetada porque, juntamente com a lógica da meritocracia, continuam a existir práticas de corrupção, privilégios ligados ao conhecimento e laços familiares. Os homens de negócios conhecem bem a palavra “guanxi” que significa o contacto, as relações, a rede de conhecidos. Durante o tempo que passam na China, para fazer negócios, estudar, ou trabalhar, tentam identificar, encontrar, chegar ao “guanxi” certo, que é o contacto que lhe permite atingir o objectivo.

Quando se trata da China, a complexidade é a característica chave, pelo que a ênfase na meritocracia não exclui necessariamente a ênfase no sistema do clã; o que nos parecem contradições não o são para os chineses pois na China muitos sistemas coexistem, abordagens diferentes, mesmo aparentemente o oposto do outro; esta é outra característica a ter em mente quando se analisa a China e quando se tenta lidar com ela; financiamento da investigação, grande activismo estatal no desenvolvimento de novas tecnologias e inovações dão origem a um sistema social e cultural em que a meritocracia e o “guanxi” se enfrentam acabando por criar um modelo híbrido com falhas, mas suficiente para estar pronto para se tornar o modelo que conquistará os outros no mundo do futuro.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 28.01.2021

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