JORGE RODRIGUES SIMAO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Educação, sociedade e ambiente (II)

Deste modo, os governos que, ao centralizarem o poder, ridicularizam e menosprezam instituições como sindicatos, associações profissionais, professores ou a voz das comunidades ou grupos religiosos, podem muitas vezes obstar a mudanças sociais construtivas.

Perante isto, qual a atitude das escolas? Parece não existir dúvida de que as escolas e as universidades são instituições responsáveis pela formação social, mas a sua contribuição para o modo como a sociedade se comporta corresponde a uma ínfima parte do todo. Grupos de pressão ambiental, como o “World Wild Fund for Nature (WWF)”, “Greenpeace” e “Amigos da Terra”, reconhecem a importância da influência exercida nos vários grupos sociais de poder e, legitimamente, tentam influenciá-los com a sua forma de pensar.

A “Royal Society for the Protection of Birds (RSPB)” no Reino Unido, produziu há vários anos um documento particularmente forte e convincente, que procurava introduzir a noção de desenvolvimento sustentável em todos os currículos do ensino superior e de pós-graduação. Esse desejo de impor uma mudança no pensamento ambiental, devia ser acompanhado de uma assunção clara de que tais grupos estão empenhados num processo de socialização, e não devem dramatizar excessivamente determinadas situações para alcançarem vantagens de curto prazo.

A liberdade de protestar e de organizar campanhas a favor do ambiente é um produto da cultura de individualismo. Não nos devemos esquecer que os adolescentes são os individualistas mais afirmativos, e têm algum poder de pressionar a sociedade no sentido da mudança social e ambiental.

Nas escolas, muitas vezes é o professor vociferante e isolado que luta pela introdução de uma perspectiva ambiental na disciplina ou programa. Quando é introduzida são indubitáveis as vantagens em existir uma componente social na formação escolar, na qual o pensamento ambiental se torne mais natural.

Muito pode ser conseguido nas escolas, por meio de uma insistência tranquila em padrões comportamentais de protecção ambiental. A gestão de zonas ecológicas, a prática de plantação de árvores sãs em solo despoluído, ou a reciclagem de embalagens de papel e de alumínio são medidas importantes. Mas, para muitos professores com preocupações ambientais sérias, estas medidas são inadequadas, e muitas vezes vêem-se forçados a aderir às causas que mais os apaixonam.

Deve-se estar atento à invasão do betão armado nos espaços verdes e que provocam um impacto violento na paisagem. Pode-se tratar de uma pista para os professores trilharem, rodeados como estão pela incerteza quanto à sua alegada excentricidade, por um lado, e pelo outro, quanto ao cinismo que chega ao ponto de tentar evitar o inevitável.

A liderança ambiental é essencial para criar uma atmosfera que desafie suavemente atitudes sociais dominantes. As escolas devem lançar desafios tanto às crianças e jovens como à sociedade. O ambientalista considerado louco, que anunciou aos seus alunos que não classificaria nem leria ou aceitaria uma prova que não fosse escrita no verso de uma folha de papel usada, estava a fazer uma declaração pública de compromisso com o ambiente. Esta atitude pertence decerto ao número daquelas que obrigarão os estudantes a sentar-se e a repensar; talvez os obriguem mesmo a ir buscar papel ao contentor do lixo ou de resíduos sólidos.

A ética ambiental que procuramos, precisará de uma grande componente de engenharia ambiental para ser bem sucedida. É certo que devemos promover a nossa causa e assumir plenamente o que fazemos. É preciso adoptar uma atitude subversiva moderada. Todavia, ao mesmo tempo, também precisamos de lutar contra a cultura do individualismo, de modo a transformar os seus vícios egoístas numa atitude mais colaborante, comunitária, altruísta e comprometida.

No âmago desta actividade, nas escolas, está a disciplina da vida simples e da honestidade para com as crianças e jovens, e da abertura às suas necessidades e questões. É nosso dever acompanhá-las na sua descoberta pessoal da natureza. Temos de valorizar e louvar o seu trabalho e as suas aptidões. Desse comportamento dos adultos para com as crianças e jovens, nascem sociedades equilibradas que podem ser capazes de construir um futuro mais sustentável.

Até que ponto é a ciência ensinada nas escolas? Porque meio as crianças e jovens aprendem ciência, e o que se entende por ciência neste contexto escolar? O âmbito da ciência que é ensinada nas escolas é cada vez mais amplo. As mudanças têm sido drásticas. Os estabelecimentos de ensino mais abrangentes alargaram o acesso à ciência e fizeram toda a espécie de combinações de cursos que fossem acessíveis às crianças e jovens.

Esses estabelecimentos de ensino também fomentaram as especializações, talvez à custa de um apoio mais amplo nas disciplinas de humanidades, àqueles que desejavam seguir cursos de ciências. A ideia da criação de um “currículo nacional”, em parte para dotar esta diversidade de oportunidades de um enquadramento mais coerente e vulgar, podia ser uma medida eficiente experimentada com sucesso noutros países, afastada no presente pelo malogrado “Processo de Bolonha”, que o distanciaria por demasiado nacionalista e contrário aos critérios integrativos de uma política educacional comum na União Europeia.

A ciência, como a matemática e a língua nacional devia ser uma disciplina fundadora de um “currículo nacional”, obrigatório até ao final do ensino secundário e ocupando pelo menos 20 por cento de aulas, não sendo ministrado, mas indicado, não ficando pelo actual nono ano. Deviam exigir-se determinados resultados educativos, mas o método de ensino e a natureza exacta do conteúdo da disciplina, ficaria no critério dos professores, fazendo que um aluno médio soubesse ler e compreender textos de divulgação científica, ao contrário da catastrófica ignorância reinante.

Existem talvez dois conceitos distintos de ciência num estabelecimento de ensino. Em primeiro lugar, a ciência descreve a estrutura do pensamento e do conhecimento, os modelos dentro dos quais nos movemos para tentar resolver os enigmas que o mundo apresenta. Foi a isto que professor Thomas Kuhn chamou como a “ciência normal”, que corresponde para as crianças e jovens aos factos. Conhecer o mundo em que vivemos assenta em pressupostos, e que o professor Kuhn demonstrou como uma ciência com um conjunto firme de ideias e métodos, cria uma confiança e uma maturidade no seu próprio domínio.

Aceitar um modelo permite-nos progredir rapidamente na resolução de um enigma, e umas coisas encadeiam-se nas outras na imagem que temos do mundo. Quase tudo o que passa nos estabelecimentos de ensino, no domínio da ciência, está firmemente inserido nesta estrutura bastante inquestionável. Quando é apresentada de forma acrítica, conduz ao que se designa por “conteúdo da disciplina”.

Em segundo lugar a ciência é encarada como um processo de aplicação e avaliação de conhecimentos, através da observação e experimentação, no qual as conjecturas são criticadas sem dó nem piedade. O encorajamento de uma imaginação livre e criativa e o criticismo céptico e disciplinado são elementos vitais. Nos estabelecimentos de ensino, são fomentados, na medida do possível, através da ciência experimental e da investigação individuais dos estudantes. Para os melhores professores e seus alunos, significa que o método de chegar à resposta é a parte mais importante do trabalho.

Os bons professores devem saber estabelecer o equilíbrio entre o conteúdo e o método. Muitas vezes, a ciência experimental de ensino pode parecer um pouco vazia aos bons estudantes, porque apercebem-se do que à primeira vista pode parecer uma experiência ilimitada, é apenas um ritual de investigação destinado a afirmar a autoridade do modelo em que se movem. Trata-se de um problema grave no ensino científico que não permite criar um clima favorável ao pensamento.

É uma urgente necessidade a existência de jovens cientistas que questionem as respostas e que não se limitem a responder às perguntas. No entanto, fazer tal afirmação num estabelecimento de ensino pode parecer muito banal, porque os estudantes sabem que conseguiram conhecer os factos, e os professores também devem ser avaliados pela qualidade dos resultados dos exames dos seus alunos. Na ciência dos estabelecimentos de ensino, procuram-se sempre fazer as investigações que permitam ao autor das experiências fazer perguntas e obter respostas relativamente rápidas.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 13.05.2011
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