JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

O ambicioso impacto global da China

 Dr. Justin Lin: China's Economic Rise and the Global Economy

ChinaGlobal

“The other mistake people make is to look only at one-dimensional projections of power. Most people, when they talk about China passing the United States, are looking only at growth in gross domestic product (gdp) and the size of the economy. They neglect military power and soft power. In military power, however, the Americans are well ahead of the Chinese, and the Chinese are unlikely to catch up in the ability to project military power globally for several decades.”

 

Bulletin of the American Academy, Spring 2011

Joseph S. Nye, Jr.

 

A China é a potência emergente mais importante do mundo. A China tem caminhado, nas duas últimas décadas da periferia para o centro do sistema internacional. A China todos os dias e em todos os lugares, aparece com destaque e desperta a atenção global.

Qualquer que seja o canal de televisão que escolhamos ou a frequência de rádio que sintonizamos a China é sempre notícia, quer seja na procura de recursos naturais para consumir ou absorvendo investimentos, expandindo a sua presença no exterior, afirmando-se aos seus vizinhos asiáticos, quer seja, como o pretendido procurado na diplomacia e governança global ou navegando a sua frota em águas novas, alargando a sua exposição global aos meios de comunicação social, bem como intensificando a presença cultural e a gestão de uma mega economia que é o motor do crescimento global.

O impacto global da China é cada vez mais sentida em todos os continentes, na maioria das instituições internacionais, e em muitos conflitos e problemas globais. A China é a segunda maior potência mundial, depois dos Estados Unidos. A sua economia deve superar a dos Estados Unidos em 2025. Têm-se observado durante as últimas três décadas, como o mundo tem sido alterado por força do impacto que a China tem vindo a produzir. As posições estão a inverter-se e é necessário entender como a China está a exercer o seu efeito no mundo.

A emergência da China no cenário mundial está a acelerar-se dramaticamente, a um ritmo e alcance inusitados, e é importante compreender as diferentes manifestações do seu "tornar-se global". A expansão global da China não ocorre por mero acaso, foi determinada directamente pelo Partido Comunista com as politicas governamentais lançados na famosa “Terceira Sessão Plenária do 11.º Comitéê Central”, em Dezembro de 1978, para participar da “reforma e abertura” (改革 开放).

Ao longo da década de 1980, a China “convidou o mundo para dentro” (引进 ) e iniciou os primeiros passos hesitantes no cenário mundial, em particular nos intercâmbios educacionais de ciência e de tecnologia com o exterior.

No início da década de 1990, houve uma política governamental consciente lançada para incentivar as empresas comerciais chinesas a “sair ao exterior” (走出去), e para as localidades e organizações chinesas se “tornarem mais globais” (走向世界).

O incentivo para as empresas chinesas não se começou a materializar apenas em 2007, mas na segunda metade de 2000, quando consideráveis ​​iniciativas internacionais foram realizadas por uma grande diversidade de organizações chinesas, localidades, e indivíduos.

A China lançou a sua guerra cultural global relâmpago, em 2008, na tentativa de melhorar a sua imagem internacional e de construir o seu “soft power”. O Exército Popular de Libertação (PLA, na sigla em inglês) durante a mesma década reforçou o intercâmbio militar internacional, acumulando mais de quatrocentos intercâmbios. A ideia da China se “tornar global” existe há algumas décadas, apesar das manifestações serem mais recentes.

A característica distintiva da missão de modernização da China tem sido, durante um longo período de tempo, a procura nacional do “poder abrangente” (综合 ). Os chineses aprenderam sabiamente um ensinamento fundamental ao estudarem as experiências de outras potências anteriores. O estudo revelou que as autênticas potências mundiais possuem força multidimensional.

Os estrategas chineses observaram as falhas de outras potências que possuíam força em apenas uma única dimensão ou em poucas, e chegaram à conclusão de que é importante para construir e cultivar o poder de forma compreensiva, fazê-lo através de uma variedade de esferas como a económica, cientifica, tecnológica, educativa, cultural, diplomática, militar, de governação e de valores, entre outras.

 Os chineses entendem que o poder é abrangente e integrador, não atomístico. O poder presentemente, não se revela e exerce como acontecia nos séculos XIX ou XX, quando os aspectos industriais e militares prevaleciam, devendo igualmente, reflectir uma forte dimensão cultural e normativa, “soft power”.

O esforço contemporâneo da China para recuperar o seu estatuto como potência global tem sido conscientemente ambicionado e o caminho seguido tem por fim levá-la a tornar-se uma potência multidimensional de estratégia abrangente. Mas como é que o recente poder abrangente da China se manifesta globalmente e como é que a China pode influenciar as grandes questões globais no futuro?

Estas são as grandes questões estratégicas da nossa era. Alguns observadores triunfalmente têm proclamado que a China vai “dominar o mundo”. Esta perspectiva é profundamente exagerada e errada. A China tem um longo caminho a percorrer antes de se tornar, se é que alguma vez se tornará numa verdadeira potência global.

E se tal vier a acontecer nunca vai “dominar o mundo.” A evidência revela que a China tem uma cada vez mais ampla “pegada” em todo o mundo, mas não é particularmente profunda. A sua presença varia substancialmente de sector para sector. A China não é um país desenvolvido, mas em desenvolvimento e não ganhou por conseguinte estatuto de “cidade” de forma a ser considerado um “modelo” para os outros países, pois num espaço tão curto de três décadas, fatalmente, varia de médio a fraco.

Nesse curto espaço de tempo e pela própria “natureza das coisas”, de que tudo tem o seu tempo de gestação, de “nascer e crescer”, a China está na fase de nascimento em muitos sectores, de crescimento em tantos outros e por tal facto seria anormal e desarmonioso que a sua postura global não fosse assolada em diversos pontos fracos que devem ser fortalecidos.

Assim, os pontos fortes não são ainda suficientemente sólidos e coesos como aparentam, porque tal como todas as plantas para se tornarem robustas, precisam de tempo e do seu crescimento ser acompanhado, assim como cuidada deve ser a germinação das sementes donde nascem.

A China continua a ser um poder solitário, carente de amigos íntimos e não possui verdadeiros aliados ainda, pois trata-se de um período muito curto na história da grande nação chinesa. As relações mais próximas da China, com a Rússia, Paquistão e Coreia do Norte, podem ser considerados como fortes elementos de desconfiança infiltrados por baixo da superfície das relações harmoniosas de Estado a Estado.

A China devido ao seu rápido crescimento, não teve ainda tempo de solidificar muitos sectores e está na comunidade das nações, mas em muitos aspectos não é ainda realmente parte da comunidade. É formalmente envolvida, mas não é normativamente integrada.

É um membro da maioria das organizações internacionais, mas não muito activa em muitas, com excepção de quando necessita de proteger continuamente os seus estritos interesses nacionais. A sua diplomacia também é considerada por vezes fraca, por aversão ao risco e a algo de individualista, resultado da mescla do princípio da conciliação e do crescimento pacífico e harmonioso tão caro à sua filosofia existencial, dando a conhecer as matérias em que se opõe e raramente as que acorda.

Tal característica de componente distinta, não é apenas apanágio China mas da maioria dos países, sendo liderada pelos Estados Unidos e Rússia. A China muitas vezes fica de lado ou permanece passiva nas questões relativas aos desafios que contendem com a segurança internacional ou com as questões de governança global.

O denominador comum para a maioria das actividades globais da China e da política externa é o seu desenvolvimento económico, o que leva a um comércio mercantilista e a uma postura de investimento. A China em muitos sectores possui ainda pouco “soft power”, o que não é modelo para outras nações imitarem.

As percepções desmentem a realidade, muitas das vezes. Se a China é ou vier a ser uma potência global, ou não, todavia não deixa de ser entendida actualmente como tal, por muitos ao redor do mundo. A sociedade civil global vê a China como uma potência mundial e prevê que ultrapasse os Estados Unidos no dobrar da primeira quarta parte do século.

O relatório de 2011 do “Pew Global Attitudes Project” relativo aos projectos públicos investigados ​​em vinte e dois países, constatou que, em quinze países, a maioria opinou que a China substituiu ou irá substituir os Estados Unidos como potência global. A China possui muitas características de potência global, como tendo a maior população do mundo; uma grande massa continental de terra; um programa espacial tripulado; um porta-aviões; o maior museu do mundo e a maior central hidroeléctrica do mundo.

A China é ainda a segunda maior economia do mundo; tem o segundo maior orçamento militar do mundo; tem a maior taxa de crescimento anual nas últimas três décadas no mundo; é o maior exportador mundial; detém as maiores reservas cambiais do mundo; é o segundo maior receptor mundial de investimentos estrangeiros directos; tem o maior número de milionários e bilionários do mundo, e é o maior produtor mundial de muitos bens.

Apesar destes atributos, a China é um actor global, sem ainda ser uma verdadeira potência global. A distinção é de que as verdadeiras potências influenciam outros países e acontecimentos e não é possível liderar na sombra. Ter uma presença global tão só não é sinónimo de potência global, a menos que um país exerça influência em acontecimentos determinantes numa determinada região ou território.

Moldar o resultado desejado de uma situação é a essência da influência e do exercício do poder. A este respeito, é de considerar o pensamento do professor Joseph Nye, no seu livro “The Future of Power”. A definição de poder é semelhante ao dado por Robert Dahl, ou seja de que o poder é a capacidade de A conseguir que B faça o que de outra forma nunca seria capaz de fazer.

O professor Joseph Nye argumenta igualmente que, por si só, os recursos não constituem poder a menos que sejam usados ​​para tentar influenciar o resultado de uma determinada situação, ou seja por outras palavras, a riqueza # poder # influência. Segundo o mesmo pensador, a essência do poder, encontra-se na conversão de recursos em influência, que é o exercício do poder.

Adoptando essas definições de poder defendidos pelo professor Joseph Nye, é possível demonstrar que em apenas alguns sectores a China exerce realmente uma influência global, como os padrões do comércio mundial, mercados globais de energia e “commodities”, a indústria do turismo mundial e vendas globais de bens de luxo.

A China além destas áreas não influência na realidade, por enquanto, os acontecimentos mundiais por muito boa vontade que se queira ou deseje uma realidade imediata diferente. O velho ditado de que Roma e Pavia não se construíram num dia, vêm a favor da China. O tempo é o seu maior aliado para atingir os patamares que lhe faltam para ser uma potência global.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 13.12. 2013
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