JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A China como potência global

The Dragon Extends Its Reach: Chinese Military Power Goes Global

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“Emerging China is changing the face of global economics and politics. The market will go forward on a healthy track in the future. China will benefit from cooperation with market leaders such as the United States and the United Kingdom.”

 

China’s Financial Markets: An Insider’s Guide to How the Markets Work

Salih N. Neftci and Michelle Yuan Menager-Xu

O ressurgir da China como potência global está a afectar de forma crescente o mundo. É preocupante a nova tendência dos académicos de conhecer cada vez mais, sobre cada vez menos e a sua exponencial incapacidade de generalização, em todos os aspectos, sobre o desenvolvimento da China, ou seja, nas últimas três décadas, a comunidade académica tem realizado estudos imensos acerca de fenómenos no micro nível, o que talvez tenha permitido conhecer mais sobre as “árvores”, o que não implica necessariamente ter uma melhor compreensão sobre a “floresta”.

A desagregação excessiva não levou a uma melhor compreensão da China na sua totalidade. A ascensão da China é o grande momento da história de nossa era. Os estudiosos do tema, tem uma obsessão pelas teorias e metodologias das ciências sociais, que mais que esclarecer o objecto de estudo são um obstáculo ao entendimento da China.

 O teste de teorias e aplicação de metodologias, infelizmente, tornou-se um fim, ao invés de ser um meio para aprofundar o conhecimento e a compreensão, o que faz que as escolas, e em particular as universidades, se divorciem cada vez mais da sua missão que é a de iluminar os espíritos e educar as mentes.

O maior e melhor conhecimento da China parece residir nos profissionais ou instituições que desenvolvem actividades nas áreas dos negócios, bancárias, consultoria, direito, diplomacia, segurança, jornalismo e organizações não governamentais ao invés da comunidade académica.

Os estudiosos sobre a China não são mais um repositório de conhecimento como o foram no passado recente, o que parece ser natural, não deixando porém de ser lamentável. Existe uma frustração enorme quanto à comunidade académica, quando os cidadãos pretendem conhecer a China na sua totalidade.

É uma necessidade premente compreender a ascensão global da China. O despertar da China que abalaria o mundo, foi profetizado por Napoleão. As perguntas inevitavelmente surgem. Mas como? Qual a forma? Será possível compreender as várias dimensões, complexidades e implicações da marcha da China?

Os cépticos podem contestar essa sabedoria convencional e inquirir se a China na realidade, está a abalar o mundo e a tornar-se numa potência global e se assim é, exactamente como, ou, será que a China está a assumir e a exercer uma influência internacional, derivada de uma campanha publicitária vazia de conteúdo?

Existem muitas respostas e desde logo algumas provieram do extremo norte da Praça da Paz Celestial, que simboliza o poder político na China, por ocasião do dia nacional e aquando da celebração do sexagésimo aniversário da implantação da República Popular da China, a 1 de Outubro de 2009, sob o olhar atento do retrato gigante do “grande timoneiro” Mao Tsé-Tung, na simbólica “Porta de Tiananmen”, tornando claras as antinomias da ascensão da China, pelo desfile das colunas de dez mil soldados que marcharam a passo rígido de ganso em formação cerrada, mostrando as armas automáticas com cabeças inclinadas em direcção ao palanque oficial.

A infantaria era seguida por enormes camiões que transportavam gigantescos mísseis balísticos intercontinentais e mísseis de cruzeiro furtivos, tanques modernos, lançadores de foguetes, artilharia, veículos blindados, com caças e bombardeiros estratégicos.

 Tal demonstração, ao contrário do que se possa pensar, não é uma cópia dos misteriosos desfiles marciais semelhantes aos orquestrados pelos anteriores regimes marciais ex-soviéticos, e pelo actual norte-coreano, exibindo uma metáfora perfeita para as contradições que a ascensão da China tem engendrado.

A leitura a fazer, é de que o desfile além de ter sido um evento especial, foi destinado ao consumo interno dos mais de cerca 1,3 mil milhões de chineses em cumprimento da promessa de que o seu país, após as seis décadas de implantação da República Popular da China, devia ocupar um papel grandioso como potência mundial.

As comemorações revelaram uma coreografada cuidada e praticada com precisão meticulosa, quando comparadas com o ano precedente, acalmando a ânsia nacional no respeito internacional que o país detém, após ter retomado o seu lugar como uma das potências mundiais.

O equipamento militar mostrado, parecia destinar a impressionar o mundo com o novo poderio militar, mas nem por isso se trata de uma contradição na ascensão pacífica da China e nas suas intenções benignas, mas deve ser encarado como uma demonstração de ter a capacidade de defesa e dissuasão no Pacífico, em caso de ameaça de conflito.

O presidente chinês passou revista às tropas com saudações calorosas, mostrando um ar grave, dada a seriedade do momento, aliviado após a parada, pelo desfile de carros alegóricos floridos, com crianças a cantar, dançarinos, minorias étnicas de trajes coloridos e outras mostras da China.

A colagem de imagens não parece ser contraditória, ao contrário do pensado no Ocidente, por se tratar de uma tentativa de transmitir ao mundo que a China deseja o desenvolvimento pacífico e quer ter um papel conciliador global sem descurar a sua defesa.

Afim de evitar um ataque terrorista surpresa, como o acontecido a 28 de Outubro, perpetrado por terroristas da Região Autónoma Uigure de Xinjiang, de etnia muçulmana e língua turca que causou cinco mortos e quarenta feridos na praça Tiananmen, foram tomadas as mais ínfimas medidas de protecção com intensa segurança, sendo mobilizadas a polícia e as forças especiais que se estenderam pela capital do país, com os bairros patrulhados, a estradas de acesso bloqueadas, os imigrantes e dissidentes sujeitos a medidas de segurança extraordinárias, a minuciosa inspecção e verificação dos documentos de identificação dos estrangeiros, colocados vigias e criados pontos de observação por toda a cidade.

Ao longo do percurso do desfile, todos os escritórios foram encerrados uma semana antes e vários dias depois, enquanto os residentes de apartamentos voltados para a Avenida Chang'an (que significa paz eterna) foram instruídos a permanecer afastados das janelas no dia das comemorações. A cidade parou totalmente no dia 1 de Outubro, as ruas foram bloqueadas ao trânsito e não foi permitida a circulação de pessoas no perímetro de um quilómetro do percurso do desfile.

Os que tiveram a sorte de receber um convite para o evento foram transportados para a Praça Tiananmen, por autocarros a partir de uma zona especial no Estádio dos Trabalhadores. A segurança intensa em Pequim tinha-se registado no ano anterior, aquando da realização das Olimpíadas. As grandes questões colocadas residiam no facto de saber qual a razão de tamanho receio se o Partido Comunista estava tão orgulhoso dos seus sessenta anos no poder e qual a necessidade de tamanha segurança?

Existem infinitas respostas, mas é razoável pensar que as autoridades realmente temiam sabotagem do equipamento militar ou interrupção das festividades por "separatistas étnicos" ou terroristas domésticos, que a acontecer deixariam irremediavelmente uma mancha muito escura na imagem do governo, que faria criar uma torrente de bolhas de descontentamento que produziriam ondulações na sociedade.

Tal entendimento, deita por baixo, o argumento da existência de profunda insegurança dentro do regime. A justaposição de orgulho e patriotismo, por um lado, misturados com possíveis dissensões ou desvios no seio do regime, logo corrigidos como foi revelado pelo julgamento do ex-dirigente Bo Xilai, acusado de abuso de poder, má gestão de fundos públicos e corrupção não são fortes razões para crer na existência de condições de conflito na China.

O anterior evento realizado catorze meses antes na capital chinesa no Estádio Olímpico “Ninho de Pássaro” aquando do encerramento da XXIX Olimpíada, foi uma demonstração de "soft power" da China, traduzido em várias horas de coreografia criativa, teatro de tirar o fôlego, inundação de colorida iluminação, com os atletas de duzentos e quatro países e territórios a balancear o corpo no interior do recinto sob o tema chinês de "Um Mundo, Um Sonho", que pressagiavam os festejos culturais do ano seguinte.

A impressionante exibição de encerramento, bem como as cerimónias de abertura dos excelentemente geridos Jogos Olímpicos, deixaram a esperança de que durante o tempo que durou o evento e foi centro das atenções internacionais, a China tinha a capacidade de lançar o seu sexagésimo ano de identidade nacional de vitimização pelos estrangeiros e avançar no mundo, com uma nova confiança.

O desfile foi a combinação de “soft power” e de algum “hard power”, sendo que o primeiro tranquilizou o mundo e o segundo parece tê-lo assustado. A combinação dessas duas faces da mesma moeda parece ter levantado outras interrogações no Ocidente, nomeadamente, a de saber qual das faces será o suporte do novo projecto de projecção da China no cenário mundial.

O ano de 2010 ficou conhecido como o de "afirmação" da China. O governo chinês durante esse ano desdobrou-se num conjunto de acções diplomáticas intensas e complexas com os seus vizinhos asiáticos, os Estados Unidos, Austrália e União Europeia e que parece ter desconcertado o mundo. O dragão estava a polir as suas garras.

No seguimento dessas acções, durante 2011 e 2012, a China mudou e aferiu a sua diplomacia, empreendendo uma campanha de reafirmação diplomática em direcção a esses países, de multifacetado “soft power” e pública diplomacia, visando melhorar a sua imagem no mundo. No entanto, encaixados nestes eventos e apresentações pessoais encontram-se algumas das complexidades da "ascensão" da China.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 29.11.2013
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