JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A internacionalização das economias

Yuning Gao: The Future of China and the RMB - A Historical Perspective

 Internationalizationeconomies

O processo de internacionalizar as economias poder-se-á considerar como o prosseguimento de um modo morfológico de desenvolvimento iniciado localmente, no qual a divisão do trabalho é um factor fundamental.

Esta ideia, que se pode considerar de tradicional, na qual a sucessão de acontecimentos que levou à criação de uma economia internacional poderia reduzir-se invariavelmente da forma seguinte: no começo, as unidades político-económicas de base, profundamente heterogéneas como as famílias e povoações vivem viradas para si e consomem o principal da sua produção.

A organização da produção para satisfação das necessidades básicas concebeu um lugar para a realização de trocas quando passam a existir excedentes, permitindo que estes possam ser permutados por outros bens produzidos por distintas unidades de produção, nascendo os mercados, que são os espaços de circulação dos excessos de produção das distintas unidades, onde posteriormente surge a moeda que vem substituir as permutas de bens e simplificar as suas oportunidades.

A existência de mercados e a propagação dos hábitos monetários abrem sucessivas fendas no modelo de satisfação das necessidades primárias da produção doméstica e fomentam a especialização das actividades. A produção que antes estava virada para si passa a estar virada para o mercado e é estimulada pelo motor do lucro.

A divisão do trabalho aumenta sem cessar, ao ritmo do desdobramento da esfera mercantil, que cobre progressivamente o conjunto das actividades e estende a sua rede muito além das fronteiras, até formar um único mercado global. A apresentação da génese da economia internacional e da economia de mercado, desta forma, por muito sedutora que seja, não corresponde aos ensinamentos da investigação histórica e antropológica. Na realidade, tem origem na dupla projecção no tempo e no espaço, das características da economia de mercado tal como eram entendíveis na Europa do século XVIII.

O famoso jurista, economista e antropólogo húngaro Karl Polanyi, na sua obra “A Grande Transformação”, publicada em 1944, faz uma dura e acutilante crítica ao carácter evolucionista e eurocêntrico do pensamento clássico. Tendo por fundamento os trabalhos do início do século passado, nomeadamente do pai da antropologia social, o polaco, Bronislaw Malinovski, e do antropólogo e sociólogo alemão, Richard Thurnwald, Karl Polanyi demonstra que até à Revolução Industrial, a instituição do mercado, ainda que fosse muito antiga, desempenhou um papel apenas secundário na vida económica das diferentes civilizações, pois do ponto de vista da organização económica, é próprio das sociedades pré-capitalistas a economia não existir como esfera autónoma, mas estar sistematicamente inserida nas relações sociais.

O sistema económico nas suas dimensões de produção e de repartição do produto, é gerido não em função de uma racionalidade individual baseada na procura do lucro, mas segundo motivações não económicas, entre as quais figuram em primeiro plano as relações de parentesco e as representações religiosas. Em sentido oposto às proposições de Adam Smith, em vez de uma presumível predilecção do indivíduo pela venda ou troca, regista-se na maior parte das civilizações uma marcada aversão por actos abertamente apoiados em interesses económicos.

Ainda que, não ignorassem o mercado, os primeiros impérios da Antiguidade e as sociedades primitivas que os precederam organizavam-se geralmente segundo princípios diferentes, baseados na reciprocidade, na redistribuição e na satisfação das necessidades primárias. A reciprocidade, característica de muitas sociedades primitivas, significa que os actos económicos se inscrevem numa cadeia de donativos e de contra donativos recíprocos que, a longo prazo, se equilibram, beneficiando da mesma maneira cada uma das partes envolvidas.

A redistribuição que está no cerne da organização dos impérios quer seja na Mesopotâmia, Egipto, China, Índia, Pérsia, como na América pré-colombiana, efectuou-se por centralização e armazenagem da produção, que depois é repartida entre os membros da sociedade segundo os princípios que lhe são próprios. A organização do trabalho colectivo em larga escala assinala-se pela existência de uma acentuada divisão do trabalho, que está totalmente desligada da formação de uma economia mercantil.

A acumulação de excedentes que essa divisão do trabalho permite não resulta no desenvolvimento de uma esfera mercantil, mas na realização de grandes trabalhos de infra-estruturas como sistemas de irrigação, por exemplo e maravilhas arquitectónicas com finalidades muitas vezes religiosas, como por exemplo os zigurates mesopotâmicos, pirâmides egípcias e templos mais.

 

Jorge Rodrigues Simão, 11.11.2013

 

 

 

 

 

 

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