JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A ascensão do Japão

Japanese History of Edo period to Meiji Restoration(1/6)

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Japanmeiji

“The Meiji government discovered the developmental trick encapsulated in Michael Lipton’s dictum as: ‘If you wish for industrialization, prepare to develop agriculture.”

 

How Asia Works: Success and Failure in the World's Most Dynamic Region

Joe Studwell

 

O famoso jurista, economista e antropólogo húngaro Karl Polanyi, na sua obra “A Grande Transformação”, publicada em 1944, faz uma dura e acutilante crítica ao carácter evolucionista e eurocêntrico do pensamento clássico, numa óptica comparativa e tendo em conta as investigações posteriores, põe em evidência o carácter excepcional da mudança operada na sociedade ocidental pelo progresso do comércio de longo curso.

Todavia, esses trabalhos não esclarecem as condições que possibilitaram o desenvolvimento desse comércio e a formação do capitalismo mercantil na Europa a partir do século XI. A excepção europeia, com efeito, não tem a ver como o seu grau de avanço tecnológico, nem com a existência de uma classe de comerciantes.

Tal como afirmou de forma assaz brilhante, o historiador e sinólogo inglês, Joseph Needham, no seu livro “Within the Four Seas: The Dialogue of East and West”, publicado em 1969, de que o progresso dos conhecimentos técnicos pode desenvolver-se independentemente de qualquer problemática mercantil. Durante mais de quinze séculos, a China esteve mais avançada no plano tecnológico que a Europa, sem que daí resultasse a emergência de um capitalismo mercantil ou industrial. 

A constituição no século XIII do Império Mongol, que unificou provisoriamente o imenso espaço que vai da China ao litoral russo do Mar Negro e à Hungria, permitiu aos mercadores italianos prescindir dos intermediários árabes para ter acesso às riquezas do Oriente. Estabeleceram-se assim as rotas comerciais terrestres com a Índia e a China, como relatou o veneziano Marco Pólo.

No período de mais de um século, ou seja, entre 1430 e 1540, os negociantes, navegadores e conquistadores europeus exploraram as costas da África, que finalmente conseguiram contornar, apoderando-se do comércio árabe e indiano no Oceano Índico, chegam à China e ao Japão, descobrem o continente americano e completam a sua conquista. Embora os marinheiros sejam muitas vezes italianos, os iniciadores destas aventuras comerciais são, curiosamente, os monarcas de nações que até então se contentavam com um estatuto marginal no cenário europeu.

Primeiro Portugal, com um milhão de habitantes e apenas 89,000 km2 no princípio do século XVI, tornou-se em poucas décadas a alma de um império comercial que se estendeu do Brasil a Macau, abrangendo as duas costas de África e o caminho marítimo para a Índia.

Os historiadores são unânimes em colocar na origem desta expansão alucinante a sede de ouro, cuja escassez colocou dificuldades aos comerciantes. Desde a Antiguidade, o mundo ocidental era deficitário nas suas trocas comerciais com o Oriente. O continente europeu era pobre em metais preciosos e dependia do comércio com os muçulmanos para financiar as suas compras de especiarias, pérolas e tecidos preciosos orientais.

O progresso da navegação e o recuo do Islão ao longo de todo o século XV fizeram prever a possibilidade do acesso directo às minas africanas. Na época, de facto, o ouro era um produto africano, cujo circuito comercial era controlado pelos muçulmanos. A cidade de Génova, a grande rival de Veneza, apoiou-se em Lisboa, fase cómoda na rota da Europa do Norte, mas também posição privilegiada dominando as costas noroeste de África, para tentar encontrar um caminho marítimo para o ouro do Sudão.

Os primeiros êxitos no Norte de África e a descoberta das riquezas da África Ocidental, como o ouro, marfim e escravos, dão um novo ânimo ao Reino de Portugal, cujo maior impulsionador foi o Infante D. Henrique, que rapidamente se distancia dos genoveses, que rumam a Sevilha, outra paragem entre os dois Mediterrâneos, convertida pelos italianos em praça comercial e financeira.

A partir de 1490 existia a possibilidade dos Portugueses fazerem a circum-navegação de África e nos últimos anos do século XV, Vasco da Gama dobra o Cabo da Boa Esperança e chega à Índia. É quebrado o monopólio veneziano do comércio das especiarias enfraquecido pela queda de Constantinopla em 1453. A descoberta desta última rota explica sem dúvida a recusa da coroa portuguesa em financiar a expedição do genovês Cristóvão Colombo, que também se propõe atingir a Índia navegando para Oeste, e que receberia por fim o apoio da rainha de Castela, desejosa de celebrar deste modo a conquista de Granada aos mouros, em 1492.

Segundo a Espanha, no período de quatro anos, completa a descoberta do “Novo Mundo” que se propôs colonizar e que se estendia do Chile à Califórnia, da Argentina à Florida, contornando o Brasil, mas destruindo na sua passagem, qual terramoto, as civilizações asteca e inca e aniquilando a população indígena, que no México antes da chegada do temível e cruel conquistador Hernan Cortez foi de 25 milhões de pessoas. É de considerar que deste empreendimento de alcance mundial, a Europa extraiu uma riqueza fabulosa.

Ao afluxo de ouro e prata juntaram-se a grande quantidade de produtos desconhecidos que revolucionaram a alimentação, como o café, cacau, açúcar, batata, tomate, milho e arroz e frutos tropicais, entre muitos outros, e as manufacturas, como o algodão, anil, pau-brasil e o marfim, proporcionando lucros fabulosos aos comerciantes que conseguiram controlar os novos circuitos comerciais.

O valor dos metais preciosos e especiarias importados pela Europa representou cinco vezes o valor do comércio intra-europeu do trigo que no século XVI, constituiu a corrente de trocas marítimas mais considerável em volume. A Itália, privada do monopólio do comércio de especiarias, minada por lutas internas e devastada por invasões estrangeiras deixou de dominar a economia europeia.

A cidade Lisboa substituiu Veneza como centro do comércio das especiarias, mas é Antuérpia que se afirma como principal porto europeu na primeira metade do século XVI, mas foi perdendo progressivamente a sua importância em benefício de Amesterdão que passou a primeira praça económica e financeira da Europa e a conservou até ao final do século XVII.

O surgimento da economia-mundo europeia entre a metade do século XV e a metade do século XVII não foi marcado por inovações técnicas apreciáveis. O pluralismo político, característico do espaço europeu, é o que distinguiu a economia-mundo do império. A característica das economias-mundo que precederam a da Europa como a da Mesopotâmia, Mediterrâneo Antigo, Roma, é acabarem sempre por se transformarem em impérios no dizer do famoso sociólogo americano, Immanuel Wallerstein.

O Japão é o país onde o nacionalismo económico obtém os resultados mais espectaculares. O Japão é único país não europeu que passou pela Revolução Industrial do século XIX. O Japão é o único Estado não europeu que não sofreu a dominação colonial. O historiador belga, Paul Bairoch, defende a tese de que tal particularidade deve-se à distância geográfica, ao clima temperado, que excluía qualquer produção de tipo colonial capaz de interessar os ocidentais, assim como ao atraso técnico em comparação com a China e Índia, o que limitava a sua oferta de artigos manufacturados de luxo, somando uma política de isolamento praticada de forma deliberada durante quase dois séculos, ou seja, entre os períodos de 1639 a 1859, que praticamente interrompeu todos os contactos com os comerciantes europeus.

O Japão não sofreu o traumatismo da alienação de soberania, não viu a sua indústria minada pela invasão de produtos ocidentais, nem o seu regime demográfico perturbado pela intrusão europeia. O atraso técnico era relativo na medida, na medida em que, ao iniciar-se a era Meiji, o Japão era uma sociedade altamente alfabetizada e urbanizada, com uma indústria muito próximo da Europa no limiar da industrialização.

A partir de 1894, com a intervenção na Coreia e a derrota da China, o Japão afirma os seus intuitos expansionistas. Obtém a revisão dos tratados comerciais firmados em meados do século XIX, pondo termo à sua inferioridade diplomática. A vitória espectacular contra a Rússia, em 1905, deu-lhe acesso aos recursos da Manchúria e transforma-o numa potência internacional de primeiro plano.

O traço específico da economia-mundo europeia moderna é o seu carácter capitalista. O termo capitalista para Immanuel Wallerstein, não se refere a certo nível de desenvolvimento das forças produtivas, nem ao predomínio da relação salarial, nem à existência de empresas com fins lucrativos, nem mesmo à presença simultânea de todos estes elementos. Designa um sistema estruturalmente orientado para a acumulação ilimitada de capital. Esta característica única só podia surgir no Ocidente.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 08.11.2013
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