JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

A ascensão da China

China rising: Will new leadership bring about change?

china

“The relationship between the United States and People’s Republic of China has rightly been described by officials and experts in both countries as the most important relationship in world affairs. It is also the most complex one. These two titans are tangled together in innumerable ways - strategically, diplomatically, economically, socially, culturally, environmentally, regionally, internationally, educationally, and in many other domains. The two nations are the principal powers in the Asia-Pacific region and globally.”

 

Tangled Titans: The United States and China

David Shambaugh

 

A "ascensãoda China é um termo muito usado, conhecido, e presentemente nenhuma dúvida parece existir sobre as significativas mudanças causadas pela entrada da China no  cenário mundial. As alterações produzidas de forma dramática vão desde os modelos de comércio até ao crescimento dos desequilíbrios financeiros globais.

O crescimento explosivo da China constitui a história do final do século passado e início do nosso século e milénio, com a consequente transformação das relações económicas e políticas internacionais. Tanto a China, como a Índia, historicamente, foram responsáveis por uma grande participação na actividade económica mundial no passado recente.

Se recuarmos a 1870, vemos que o peso da China na economia global era significativo e representava 17,1 por cento do PIB mundial e da Índia 2,1 por cento. A “ascensão” da China representa, assim, um retorno à normalidade histórica, ao invés de ser considerado como uma anomalia.

É possível ser considerado como excepção, o desvio efectuado e que quase produziu o desaparecimento da China da economia global, entre 1949 e os primeiros anos da década de 1970. O notável em termos históricos, é a rapidez do crescimento da China.

Ao invés do tamanho da sua economia, e recordando a revista “The Economist” que recentemente, afirmou que " Na China cada pessoa produzia quatro vezes mais do que no início de 1970 ", o que significa que mais de 400 milhões de pessoas saíram da mais extrema pobreza para formar uma classe média urbana.

O mundo nunca tinha assistido a uma tão rápida transformação. Enquanto o debate histórico sobre o crescimento da China e o seu (re) surgimento ocupará os historiadores nos séculos vindouros, é o impacto  que esses desenvolvimentos estão a causar na política económica global e, nomeadamente, na Ásia que atrai a atenção.

Ao Ocidente, esta “ascensão” é uma preocupação manifestada através dos imensos debates sobre o seu declínio ou a deslocação da hegemonia americana e as suas implicações para a ordem mundial. No Oriente, tais debates, pelo contrário,  são muito menos ruidosos e incluídos nos problemas práticos de gestão e acomodação da China.

O Ocidente tem permanecido ocupado na contemplação da “nova era” que virá, enquanto o Oriente, começou a vivê-la. As mudanças são viscerais. O Sudeste da Ásia e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) consideram os cenários, a projeção de poder dos Estados Unidos, e as garantias de segurança alargadas por meio de cuidadas relações bilaterais com a potência americana e os impactos que sofrem de um aumento de fluxo, como as pressões da segurança da China e do seu poder económico, que estão a afectar toda a região. 

A ameaça representada pela China aos motores de crescimento tradicionais tem sido responsável pelo próprio "milagre económico" da ASEAN criando tensões e exigindo rápida re-engenharia.

A ascensão da China tem sido recebida com sentimentos mistos no Sudeste da Ásia, celebrada como evidência do surgimento do "Século do Pacífico", mas também é visto e sentido com preocupação e apreensão devido às implicações que tem para as economias e formas de vida.

As tensões contraditórias nas relações político-económicas dos países do Sudeste Asiático parecem ser contínuas. As dimensões dessas implicações não são ainda, muito consideradas, analisadas e estudadas. As contas agregadas da ascensão da China e o tamanho da sua economia parece que popularmente são interpretadas como uma espécie de fenómeno de mercado "crowding out".

Os efeitos "pull" da economia chinesa tem sido de facto, recebidos de forma diversa como sinal do fim das economias milagrosas do Sudeste Asiático, com investimento directo estrangeiro (IDE), em direção à costa leste da China na procura incessante de paraísos de baixos custos para fabricar e montar as suas mercadorias.

Apesar das contribuições para o volume da produção, trata-se apenas de uma parte da história, ainda que importante. A ascensão da China representa grandes desafios para a ASEAN e Sudeste da Ásia, mas também oportunidades crescentes, muitas das quais só presentemente se tornam claras e possíveis de serem concretizadas.

As relações China-ASEAN são vistas, a maior parte das vezes, através do prisma estreito do comércio. Os números são suficientemente impressionantes. As trocas comerciais com os Estados Unidos foram de 202,5 mil milhões de dólares em 2007, traduzindo-se num aumento de quase 30 por cento em relação ao  ano anterior. O volume total das exportações da China para a ASEAN foi no mesmo ano de 94,2 mil milhões de dólares, enquanto as exportações da ASEAN para a China foram de 108,4 mil milhões de dólares.

A ratificação da China do Acordo de Livre Comércio da ASEAN, seguido de acordos de redução das tarifas aduaneiras de sete mil produtos comercializados em 2005, e de serviços em 2007, é apenas o mais recente capítulo de uma relação comercial regional de desenvolvimento, que apesar de ser um enorme desafio, prova ser valiosa para ambas as partes.

As trocas comerciais têm vindo a crescer anualmente entre a ASEAN e a China. A título de curiosidade é de recordar que as exportações de bens dos Estados Unidos para a China foram de 110,6 mil milhões de dólares, em 2012, sendo superior ao valor total das trocas comerciais da ASEAN para a China em 2007 e correspondendo a um aumento de 6,4 por cento em relação a 2011.

As relações entre os Estados Unidos e a China alargaram-se devido ao aumento do investimento directo estrangeiro (IDE). O IDE da China nos Estados Unidos tem crescido a uma taxa média anual de 71 por cento de 2008 a 2012.

A China é a fonte de crescimento mais rápida em termos de IDE dos Estados Unidos. As dezenas de milhares de postos de trabalho americanos são o resultado de IDE chinês nos Estados Unidos.

O crescimento económico da China, visto como uma ameaça, é no presente maioritariamente aceite como uma oportunidade pelos países do Sudeste Asiático, não obstante o impacto da crise financeira global de 2008 a 2010.

O crescimento das trocas comerciais dentro da ASEAN será maior devido à aplicação planeada de um regime de tarifa aduaneira zero entre a China e os cinco países fundadores que são as Filipinas, Indonésia, Malásia, Singapura Tailândia acrescido do Brunei, para a maioria dos bens, desde 2010, e com o Camboja, Laos, Myanmar e Vietname em 2015.  O Fórum ASEAN + 3 é constituído pelos países da ASEAN, Papua - Nova Guiné e Timor-Leste, como países observadores e a China, Japão e Coreia do Sul que assinaram acordos de cooperação.

A área de livre comércio China – ASEAN, conta desde 2010 com uma população regional de 1,8 mil milhões de pessoas e um PIB combinado de dois triliões de dólares, formando o terceiro maior mercado do mundo, depois da União Europeia e da área de livre comércio da América do Norte ou Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (NAFTA na sigla inglesa).

Ainda que, o padrão de comércio historicamente caracterizado pelas economias dos países da ASEAN que actuam como fornecedores de peças ou recursos para a China para montagem ou produção de bens e exportação para o Ocidente seja muito particular, as relações comerciais são cada vez mais distintas, entre si.

A China e a ASEAN por exemplo, em 2006, foram os quartos maiores parceiros comerciais do mundo, revelado pelo o Instituto de Ciências Políticas da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS).

A região é testemunha de uma alteração nas formas de comércio – “a partir de matérias-primas para produtos industriais acabados, especialmente mecânicos, eléctricos ou de “alta tecnologia”, segundo o “China Daily, de 30 de Outubro de 2006.

Tais categorias de bens, formavam em 2005, 60 por cento do comércio China – ASEAN e 45 por cento do comércio ASEAN – China. A complexidade destas relações comerciais bilaterais e o seu crescente volume, presentemente calculado em mais de 200 mil milhões de dólares, indica um amadurecimento não apenas nas políticas comerciais e práticas entre a ASEAN e a China, mas também transições fundamentais na estrutura das suas economia e na natureza dos sistemas de produção, em evolução.

A relação da ASEAN - China que no passado podia ser definida, fundamentalmente, em termos de dinâmica competitiva para produzir e fornecer bens aos mercados ocidentais, presentemente, é regida por uma dinâmica mais complexa e um maior nível de reciprocidade económica, testemunhando o aparecimento de interdependências e complementaridades entre as diferentes actividades económicas.

A grande parte foi impulsionada quer pela reestruturação no sistema da cadeia de valor dos diversos intervenientes do sector privado, particularmente as grandes empresas multinacionais (EMN), como pelos grandes projectos de líderes políticos.

O movimento em massa de capital do sector privado para a China durante a década de 1990, por exemplo, foi sentido pelos países da ASEAN, cuja parcela de IED teve um declínio na Ásia de 50 por cento. A China no presente captura 50 por cento do IED da região.

O investimento em projectos “Greenfield” na ASEAN no sector de Módulos de Controlo Electrónico (ECM na sigla inglesa) diminuiu acentuada e predominantemente, devido à reorientação das estratégias de investimento das multinacionais japonesas, fora de Singapura, Malásia e Indonésia, em direcção ao Nordeste da Ásia (China e Coreia do Sul). A relação China - ASEAN continua  a ser definida,  quer por rivalidades de competitividade estratégica, quer por motivos recém-descobertos que levam a desejar a cooperação.

 
Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 04.10.2013
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