JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Debate Interdito

"Não prolongue o seu arrependimento, nem se preocupe demasiado com o que fará no futuro, pois o ontem pertence à história, o amahã é um mistério, mas o agora é uma dádiva divina e por isso se denomina de PRESENTE"

VIDEO

Diálogos Impertinentes

Interdito

“Senhora, tenho algo mais a dizer; estou tão interdito, tão trémulo que mal consigo falar”

Marivaux

Os tempos que vivemos fazem surgir debates sobre todo e qualquer assunto. A democracia tem o condão de desatar línguas e a sociedade eliminar os interditos. Qual a razão maior para suprimir um debate? Quem teria interesse em o impedir?

A resposta só pode ser uma, é de que ninguém está em condições de o fazer. O debate interdiz-se a si mesmo e deixa-nos interditos, porque é colocado numa dimensão espaço-temporal que não lhe concede o benefício da razão da sua existência, daí não fazer sentido que aconteça.

A partir da década de 1980, quando se esboçou uma primeira alternativa para a política económica e monetária da Europa – a outra política – todos os que participaram no debate sabiam que estavam condenados a uma situação imposta, a tomarem uma posição em relação a essa política, a manifestarem o seu apoio ou oposição. Era ao tempo impossível ser a favor, tal como é no presente impossível, excepto se estiver psiquicamente perturbado a ponto de preferir a infelicidade à felicidade.

À falta de perturbação psiquica, todos somos a favor da estabilidade dos preços, da força do Euro na actual conjuntura díficil que a União Europeia atravessa, do equílibrio com o exterior , da construção da Europa. Parece que ninguém mentalmente são seja a favor da inflação, dos défices orçamentais e do declínio da Europa.

O debate a existir não pode ser colocado desta forma , como o não podia ser a partir da década de 1980, pois só levariam ao consenso.  Uma vez que os governos fazem o que é possível, e alguns parece que desceram a fasquia do possível para o igualmente, menos possível,  e que os cidadãos não desejam por diversas razões que  as situações se passem de outro modo, pelo que as chamadas discussões de fundo desapareceram do cenário político.

A história tem a maldade de se repetir e estamos novamente no tempo dos conflitos formais, das aparências, da comunicação ilusória, mas despudoradamente  enganosa e ignorante e não mais da informação lúcida, apaixonante e educativa. O que existe são muitas discussões entre peritos, sobre o custo das medidas a aplicar (mesmo assim erradas), sobre algumas das suas presumíveis consequências, esquecendo sempre as fundamentais e sobre as grandes dificuldades de as pôr em prática.

Fazem-se conferências, seminários, mesas redondas e ovais, colóquios, reuniões e debates  sobre as dificuldades e culpas passadas, presentes e futuras, sobre o tempo necessário – muito tempo, em geral – para remover as dificuldades do presente. Mas as diculdades são tão grandes que nenhuma medida proposta conduz ao optmismo. Tudo isto produz constragimento, uma percepção confusa de que os cidadãos se calam ou que não falam o que deviam, como sendo uma forma de auto-censura  que impede a troca de ideias, sem que se consiga identificar as razões.

Os termos do debate são como uma clausura que parece não ser possível escapar. É certo que o silêncio nem sempre é a expressão de um constrangimento; pode significar um reconhecimento, uma reflexão; no fundo, provém do facto de permanecermos interditos  (no sentido de perplexos e perturbados) perante a força enganosa da convicção, da inexistente justeza das motivações das políticas  seguidas em Portugal e nos demais parceiros da crise declarada ou por declarar e da União Europeia.

Talvez exista, pela primeira vez, a situação das democracias não apresentarem alternativa.

 

13.05.2013

 

Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

paines.jpg