JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Os impactos da crise financeira e ambiental

As preocupações de momento concentram-se no impacto da crise financeira global e das consequências económicas e orçamentais, (recessão, austeridade, desemprego, entre outras) desviando a atenção das alterações climáticas, que produzem com maior frequência e intensidade eventos dramáticos. Assim, os graves riscos socioeconómicos, estão aniquilar os esforços para fazer face aos desafios das alterações climáticas.

O mundo ocidental está a viver um período de mudanças estruturais na economia e a sofrer o impacto das alterações climáticas simultaneamente, concentrando as prioridades na realização de investimentos estratégicos, como meio de evitar situações mais desfavoráveis para o sistema económico, social e ambiental.

É alta a probabilidade de continuar a pressão sobre o sistema económico, concentrando-se os líderes mundiais a estudar e encontrar soluções não apenas quanto ao actual momento, mas também, quanto aos problemas que têm fortes possibilidades de surgir no futuro próximo, como consequência da evolução de um mundo onde cada vez mais, reina a incerteza. O sistema ambiental do planeta suporta igualmente, uma crescente pressão.

O aumento das emissões de gases de efeito estufa é considerado o terceiro maior risco global, e a inaptidão de adaptação às alterações climáticas é o risco ambiental com maior impacto na próxima década. A acontecer crises simultâneas no futuro, de ambos os sistemas, seria o desencadear da "perfeita catástrofe global", com consequências certamente insuperáveis.

Face ao acúmulo crescente, de acontecimentos, como as super tempestades, gigantescas ameaças aos países-ilhas e às comunidades costeiras, e sem uma solução definitiva, com a participação da totalidade dos países para que resolva ou diminua drasticamente, o volume das emissões de gases de efeito estufa, que passa por um novo instrumento jurídico internacional que substitua o “Protocolo de Quioto”, entretanto, é endossado o amoroso testamento às gerações futuras do desaparecimento da espécie humana e morte do planeta.  

Quanto ao sistema económico, a resiliência global está a ser testada em vários países, e espera-se que não ultrapasse o seu limite e se transforme em resistência, pelo esgotamento de todas as alternativas, devido às audazes e erradas políticas monetárias e de austeridade fiscal. Quanto ao sistema ambiental, a resiliência do planeta esta ser testada, pelo aumento das temperaturas e fenómenos meteorológicos extremos que presumivelmente, se tornarão mais intensos e frequentes no futuro.

Uma súbita ruptura e em cadeia da totalidade dos elementos componentes de um dos sistemas, conduzirá à impossibilidade de desenvolver soluções eficazes no outro sistema, a longo prazo. A grande questão que se coloca, é a de saber, se com base na presunção, e dada a alta probabilidade de se produzirem crises financeiras e catástrofes naturais no futuro, se existe algum meio de desenvolver a resiliência dos sistemas económico e ambiental, simultaneamente?

O “Relatório” na sua especialidade dá uma abstracta resposta à questão, incentivando os países a munirem-se dos necessários instrumentos para enfrentar um risco global, que se revele difícil ou impossível de controlar. A solução pode passar pelo desenvolvimento de um "pensamento sistémico", (entendido como a forma de examinar e usar a linguagem apropriada para relatar e entender a dinâmica da relação que regula o comportamento dos sistemas entre si) e a aplicação do conceito de resiliência aos países.

A resiliência é composta por cinco factores, como a solidez, a redundância, a abundância de recursos, a resposta e a recuperação, que podem ser aplicados a nível nacional aos sistemas económico, ambiental, de governança, de infra-estruturas e social. O resultado é uma ferramenta de diagnóstico a ser usada pelos responsáveis na tomada de decisões, quanto à avaliação e supervisão da resiliência nacional face aos riscos globais.

O capítulo constante do “Relatório” e denominado por “factores X derivados da natureza”, foi preparado com a colaboração dos editores da revista científica inglesa “Nature”, que analisaram, além dos cinquenta riscos globais, o actual cenário mundial, tendo por objectivo, alertar os responsáveis pela tomada de decisões a nível nacional e internacional, acerca do aparecimento de cinco factores de risco emergentes, sendo o primeiro a moderação, dada a impossibilidade de resolução dos fenómenos provocados pelas alterações climáticas.

É necessário reconhecer, sem embargo de algum optimismo científico, que a atmosfera do planeta avança rapidamente para o estado de inabitabilidade, pois foi ultrapassado o limite em que era possível, retornar idealisticamente, à situação do “status quo ante”. O segundo factor é o aumento significativo dos conhecimentos, considerando que na vida laboral diária poderão surgir dilemas éticos, semelhantes à dopagem no desporto e a contínua corrida global aos armamentos.

O terceiro factor é o uso sem escrúpulos da geoengenharia, dado que se desenvolvem tecnologias para manipular o clima e um país, organização ou pessoa poderia vir a utilizá-las de forma unilateral. O quarto factor tem a ver com as despesas resultantes do aumento da esperança de vida, pois os avanços na medicina prolongam a vida, mas os cuidados paliativos a longo prazo são dispendiosos e aceitar os custos associados à terceira idade, poderá converter-se num sério problema.

O último factor tem a ver com a descoberta de vida alienígena, uma vez que a possível descoberta de vida em outras partes do universo, poderá ter profundas consequências psicológicas para o sistema de crenças da humanidade. Os sistemas económicos e ambientais encontram-se pois, em rota de colisão. Se a comunidade internacional não disponibilizar recursos imprescindíveis para amainar o risco crescente dos acontecimentos climáticos sérios, a prosperidade das gerações futuras pode encontrar-se irremediavelmente perdida.

O mundo político, empresarial e científico deve unir esforços para fazer a gestão possível de tão complexos riscos. O combate à crise económica e às alterações climáticas não é encarado pela comunidade internacional, como situações que têm de ser estudadas e geridas continuamente, mas uma escolha a ser feita em benefício de uma e prejuízo de outra. A escolha de uma situação em detrimento da outra, tem fatais consequências, porque se encontram interligadas.

É preciso entender que não existe medicamento para resolver simultaneamente, as graves doenças de que padecem. Todavia, terá de se começar por uma das pontas do fio e desatar os pequenos “nós górdios”, desde logo, abandonando a visão reducionista e entrando numa análise holística das situações, como a gestão do risco inteligente, quer quanto aos desafios económicos, quer quanto às alterações climáticas que o mundo enfrenta.

Os três principais riscos globais, conjuntamente com “factores X derivados da natureza”, são os temas das sessões especiais do “Fórum Económico Mundial”, que tem como tema central o “Dinamismo Resiliente”, que se realiza entre os dias 23 e 27, em Davos. Os delegados ao “Fórum”, estão de acordo em que se deve desenvolver o dinamismo resiliente à escala global, como uma das formas de encobrir a crise existente. A resiliência é um conceito recente que combina as ideias de resistência e elasticidade, referindo-se a algo que tem a capacidade de esticar ou encolher e voltar à situação original, após o desaparecimento da agressão.

Essa capacidade para retornar com maior força depois de ter recebido pressões ou agressões, é um instrumento extremamente necessário aos governos e empresas. Pode ser definida em economia global, como uma mistura de determinação, capacidade e esperança de que tudo o que vier a acontecer será resolvido.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 25.01.2013
Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

coimbra_iii.jpg